Enfiou as botas, prendeu o manto com um broche de cabeça de leão e deslizou para o salão iluminado por archotes. Pelo menos havia uma vantagem no seu casamento; permitira-lhe fugir da Fortaleza de Maegor. Agora que tinha esposa e criados, o senhor seu pai concordara que necessitava de instalações mais adequadas, e Lorde Gyles viu-se abruptamente despojado de seus espaçosos aposentos no topo da Fortaleza das Cozinhas. E que magníficos aposentos eram, com um grande quarto de dormir e um aposento privado de tamanho adequado, uma sala de banhos e um quarto de vestir para a esposa, e pequenos quartos adjacentes para Pod e para as aias de Sansa. Até a cela de Bronn, perto da escada, tinha uma espécie de janela.
Tyrion ouviu Brella roncando quando passou por sua cela. Shae queixava-se disso, mas parecia um preço bastante pequeno a pagar. Foi Varys quem lhe sugeriu a mulher; em outros tempos, ela tinha gerido a casa de Lorde Renly na cidade, o que tinha lhe dado bastante prática em ser cega, surda e muda.
Acendendo um círio, dirigiu-se à escada dos criados e desceu. Os andares abaixo daquele que habitava estavam em silêncio, e não ouviu outros passos além dos seus. Continuou descendo, passando pelo piso térreo e prosseguindo até emergir num porão sombrio com um teto abobadado de pedra. Boa parte do castelo estava interligada pelo subsolo, e a Fortaleza das Cozinhas não era exceção. Tyrion bamboleou-se por uma longa passagem escura até encontrar a porta que queria, empurrou-a e entrou.
Lá dentro, os crânios de dragão esperavam, e Shae também.
– Pensava que o senhor tinha se esquecido de mim. – O vestido dela encontrava-se pendurado em um dente negro quase tão alto quanto ela, e a moça estava em pé dentro das mandíbulas do dragão, nua.
Só de vê-la já ficou duro.
– Saia daí.
– Não saio. – A moça sorriu seu sorriso mais malicioso. – O senhor vai me arrancar de dentro das mandíbulas do dragão, eu sei. – Mas quando ele se bamboleou para mais perto, ela debruçou-se para a frente e soprou o círio.
– Shae... – Ele estendeu a mão, mas ela rodopiou e escapou dele.
– Vai ter de me pegar. – A voz vinha da esquerda. – O senhor deve ter brincado de monstros e donzelas quando era pequeno.
– Está me chamando de monstro?
– Não mais do que a mim de donzela. – Estava atrás dele, com passos leves no chão. – Vai ter de me pegar mesmo assim.
E ele a pegou, finalmente, mas só porque ela deixou. Quando ela se enfiou para dentro de seu abraço, ele estava corado e sem fôlego de andar tropeçando em crânios de dragão. Tudo foi esquecido num instante quando sentiu os pequenos seios dela comprimidos contra o seu rosto, na escuridão, os pequenos mamilos rijos roçando levemente nos seus lábios e na cicatriz onde tivera o nariz. Tyrion puxou-a para baixo, para o chão.
– Meu gigante – ela ofegou quando a penetrou. – Meu gigante veio me salvar.
Mais tarde, enquanto jaziam abraçados entre os crânios de dragão, Tyrion apoiou nela a cabeça, inalando o cheiro suave e limpo de seus cabelos.
– Devíamos voltar – disse com relutância. – Deve ser quase alvorada. Sansa deve estar acordando.
– Devia dar vinho dos sonhos para ela – disse Shae – como a Senhora Tanda faz com Lollys. Uma taça antes de dormir, e podíamos foder na cama ao lado dela sem que acordasse. – Soltou um risinho. – Talvez devêssemos fazer isso uma noite dessas. O senhor ia gostar? – A mão dela encontrou o seu ombro e pôs-se a massagear seus músculos. – Seu pescoço está duro como pedra. O que o inquieta?
Tyrion não conseguia ver seus dedos em frente do rosto, mesmo assim usou-os para contar as suas aflições.
– A minha esposa. A minha irmã. O meu sobrinho. O meu pai. Os Tyrell. – Teve de passar para a outra mão. – Varys. Pycelle. O Mindinho. A Víbora Vermelha de Dorne. – Tinha chegado ao último dedo. – O rosto que me fita da água quando me lavo.
Shae beijou seu nariz mutilado e cheio de cicatrizes.
– Um rosto corajoso. Um rosto bondoso e amável. Queria poder vê-lo agora.
Sua voz tinha toda a doce inocência do mundo.
– Antes você do que eu. – Tyrion sentou-se. – Temos um longo dia à nossa frente, ambos. Não devia ter apagado aquele círio. Como vamos encontrar as roupas?
Ela riu.
– Talvez tenhamos de ir nus.