– Não vi necessidade de alarmá-la, Vossa Graça. Ofereci uma recompensa pela cabeça dele...
– Pague-a ao Barba-Branca. Mero tem nos acompanhado o tempo todo desde Yunkai. Raspou a barba e perdeu-se entre os libertos, aguardando uma oportunidade de vingança. Arstan matou-o.
Sor Jorah dirigiu ao velho um longo olhar.
– Um escudeiro com um bastão matou Mero de Bravos, foi isso que aconteceu?
– Um bastão – confirmou Dany –, mas não mais um escudeiro. Sor Jorah, é meu desejo que Arstan seja armado cavaleiro.
–
A sonora recusa já era bastante surpreendente. Mais estranho ainda foi vir de ambos os homens ao mesmo tempo.
Sor Jorah puxou a espada.
– O Bastardo do Titã era um homem perigoso. E bom em matar. Quem é você, velho?
– Um cavaleiro melhor do que você, sor – disse friamente Arstan.
– Disse que era um escudeiro.
– E fui, Vossa Graça. – O velho ajoelhou-se. – Fui escudeiro de Lorde Swann na minha juventude, e a pedido do Magíster Illyrio servi também Belwas, o Forte. Mas durante os anos que se passaram entre uma coisa e outra, fui um cavaleiro em Westeros. Não lhe disse mentiras, minha rainha. No entanto, há verdades que calei, e por isso e por todos os meus outros pecados só posso lhe pedir perdão.
– Que verdades calou? – Dany não estava gostando daquilo. – Vai me dizer. Já.
Ele inclinou a cabeça.
– Em Qarth, quando perguntou meu nome, disse-lhe que me chamavam Arstan. Isso é verdade. Muitos homens me chamaram por esse nome enquanto Belwas e eu nos dirigíamos para leste ao seu encontro. Mas não é o meu verdadeiro nome.
Dany estava mais confusa do que zangada.
Sor Jorah enrubesceu.
– Mero raspou a barba, mas você deixou crescer uma, não é verdade? Não é à toa que parece tão familiar para mim...
– Conhece-o? – perguntou Dany ao cavaleiro exilado, perdida.
– Vi-o talvez uma dúzia de vezes... de longe, geralmente, quando estava na companhia dos irmãos ou participando de algum torneio. Mas todos os homens dos Sete Reinos conheceram Barristan, o Ousado. – Encostou a ponta da espada no pescoço do velho. –
O velho cavaleiro sequer pestanejou.
– O corvo chama de preto o melro, e
– Por que está aqui? – perguntou-lhe Dany. – Se Robert o enviou para me matar, por que salvou minha vida? –
– Seu, se me aceitar. – Sor Barristan tinha lágrimas nos olhos. – Aceitei o perdão de Robert, é verdade. Servi-o na Guarda Real e no Conselho. Servi com o Regicida e outros quase tão maus, que mancharam o manto branco que eu usava. Nada poderá perdoar isso. Eu poderia continuar servindo em Porto Real se o vil rapaz sentado no Trono de Ferro não tivesse me posto de lado, envergonha-me admitir. Mas quando ele tirou o manto que o Touro Branco prendeu em volta de meus ombros e mandou homens para me matar nesse mesmo dia, foi como se tivesse tirado uma membrana da frente de meus olhos. Foi então que soube que tinha de procurar meu verdadeiro rei, e morrer a serviço dele...
– Posso conceder esse desejo – disse sombriamente Sor Jorah.
– Silêncio – disse Dany. – Quero ouvir o que ele tem a dizer.
– Talvez tenha de morrer uma morte de traidor – disse Sor Barristan. – Se assim for, não deverei morrer só. Antes de receber o perdão de Robert, lutei contra ele no Tridente. Você estava do outro lado da batalha, Mormont, não é verdade? – Não esperou por uma resposta. – Vossa Graça, lamento tê-la induzido ao erro. Foi a única forma de evitar que os Lannister soubessem que tinha me juntado à senhora. É vigiada, tal como seu irmão era. Lorde Varys relatou durante anos cada movimento de Viserys. Enquanto fiz parte do pequeno conselho, ouvi uma centena de tais relatórios. E desde o dia em que desposou Khal Drogo tem um informante ao seu lado, vendendo seus segredos, trocando sussurros com a Aranha por ouro e promessas.
– Está enganado. – Dany olhou para Jorah Mormont. – Diga-lhe que está enganado. Não há nenhum informante. Sor Jorah, diga-lhe. Atravessamos juntos o mar dothraki e o deserto vermelho... – Sentia o coração rodopiar como um pássaro apanhado numa armadilha. – Diga-lhe, Jorah. Diga-lhe como entendeu tudo errado.