Depois de terminarem, Sam pediu desculpas e saiu para se aliviar e cuidar do cavalo. Soprava um vento mordente do norte, e as folhas das árvores crepitaram para ele ao passar. Teve de quebrar a fina película de gelo que cobria o riacho para que o cavalo pudesse beber.
Levar o cavalo até o casarão foi bastante simples. Fazê-lo atravessar a porta não foi, mas Sam persistiu. Goiva já cochilava quando ele conseguiu obrigar o garrano a entrar. Prendeu o cavalo a um canto, pôs um pouco de lenha na fogueira, tirou seu manto pesado e contorceu-se para baixo das peles, ao lado da selvagem. Seu manto era suficientemente grande para cobrir os três e manter o calor de seus corpos.
Goiva cheirava a leite, alho e pelo velho e bolorento, mas já tinha se acostumado a isso. Para Sam, eram cheiros bons. Gostava de dormir ao lado dela. Fazia-o lembrar-se de tempos passados havia muito, quando dividia uma enorme cama em Monte Chifre com duas das irmãs. Aquilo terminou quando Lorde Randyll decidiu que o estava tornando mole como uma menina.
Os sonhos que teve nessa noite foram estranhos. Estava de volta a Monte Chifre, ao castelo, mas o pai não se encontrava lá. O castelo agora era de Sam. Jon Snow estava com ele. Lorde Mormont, o Velho Urso, também, bem como Grenn, Edd Doloroso, Pyp e o Sapo e todos os outros irmãos da Patrulha, mas usavam cores vivas em vez de negro. Sam sentou-se à mesa e banqueteou-os a todos, cortando grossas fatias de um assado com a espada longa do pai, Veneno do Coração. Havia bolos doces para comer e vinho com mel para beber, havia canto e dança, e todo mundo estava aquecido. Quando o banquete terminou, subiu para dormir; não até o quarto do senhor, onde a mãe e o pai viviam, mas para o quarto que antes dividia com as irmãs. Porém, em vez das irmãs, era Goiva quem esperava na enorme cama macia, sem nenhuma roupa exceto uma grande pele hirsuta, com leite escorrendo de seus seios.
Acordou subitamente, cheio de frio e de terror.
A fogueira reduzira-se a brasas rubras. O próprio ar parecia congelado, de tão intenso que era o frio. No canto, o garrano relinchava e escoiceava as toras. Goiva estava sentada ao lado da fogueira, abraçada ao bebê. Sam sentou-se, atordoado, com o hálito saindo em nuvens brancas de sua boca. O salão encontrava-se escuro, cheio de sombras, negras e outras mais negras ainda. Os pelos de seus braços estavam em pé.
Então, junto à porta, uma das sombras moveu-se. Uma sombra grande.
– Ele veio buscar o bebê – chorou Goiva. – Sente o cheiro dele. Um bebê recém-nascido fede a vida. Ele veio buscar a vida.
A enorme silhueta escura curvou-se sob o lintel, entrou no salão e aproximou-se deles arrastando os pés. À luz tênue da fogueira, a sombra transformou-se em Paul Pequeno.
– Vá embora – coaxou Sam. – Não o queremos aqui.
As mãos de Paul eram carvão, seu rosto, leite, os olhos brilhavam com um azul amargo. A geada esbranquiçava sua barba e sobre um ombro empoleirava-se um corvo, bicando seu rosto, comendo a carne morta e branca. A bexiga de Sam largou-se, e sentiu o calor que corria pernas abaixo.
– Goiva, acalme o cavalo e leve-o lá para fora. Faça o que eu digo.
– Você... – começou ela.