Sam deixou Goiva no grande edifício fazendo uma fogueira, enquanto ele enfiava a cabeça nas cabanas. Ela era melhor fazendo fogueiras; ele nunca parecia ser capaz de fazer o fogo pegar; da última vez que tentara tirar uma faísca de pederneira e aço, conseguiu se cortar na faca. Goiva atou-lhe o corte, mas sua mão estava rígida e dolorida, ainda mais desajeitada do que antes. Sabia que devia lavar o ferimento e trocar a atadura, mas tinha medo de olhar para ele. Além disso, fazia tanto frio que detestava tirar as luvas.
Sam não sabia o que esperava encontrar nas casas vazias. Os selvagens talvez tivessem deixado para trás alguma comida. Precisava ir ver. Jon tinha feito uma busca às choupanas em Brancarbor, a caminho do norte. Dentro de uma das cabanas, Sam ouviu uma restolhar de ratazanas vindo de um canto escuro, mas fora isso nada havia, em nenhuma delas, além de palha velha, cheiros antigos e algumas cinzas sob os buracos para a fumaça.
Virou-se para o represeiro e estudou por um momento o rosto nele esculpido.
– Deuses antigos, escutem as minhas preces. Os Sete eram os deuses de meu pai, mas proferi as palavras perante vocês quando me juntei à Patrulha. Ajudem-nos agora. Temo que possamos estar perdidos. Também temos fome, e tanto frio. Não sei em que deuses acredito agora, mas... por favor, se estiverem aí, ajudem-nos. Goiva tem um filhinho. – Aquilo foi tudo em que conseguiu pensar para dizer.
O ocaso se aprofundava, as folhas do represeiro restolhavam suavemente, ondulando como mil mãos vermelhas de sangue. Se os deuses de Jon o tinham ouvido ou não, não saberia dizer.
Quando voltou ao salão, Goiva tinha o fogo ardendo. Estava sentada junto a ele, com as peles abertas e o bebê ao peito.
– Quanto tempo mais, Sam? – perguntou Goiva. – Ainda está longe?
– Não muito. Não tanto quanto estava. – Sam encolheu-se para fora das alças da mochila, deixou-se cair desajeitadamente no chão e tentou cruzar as pernas. Tinha uma dor tão abominável nas costas devido à caminhada que teria gostado de se encostar em um dos pilares de madeira esculpida que suportavam o telhado, mas a fogueira estava no centro da sala, sob o buraco para a fumaça, e ansiava ainda mais por calor do que por conforto. – Mais alguns dias e devemos chegar lá.
Sam tinha seus mapas, mas se aquilo não era Brancarbor, então os mapas não iam lhe servir muito.