Sam bebeu o ar, e rolou debilmente para longe. A criatura ardia, com geada escorrendo, pingando, de sua barba enquanto a pele, por baixo, enegrecia. Sam ouviu o corvo guinchar, mas Paul não soltou um som. Quando a boca se abriu, só saíram chamas. E os seus olhos...
Arrastou-se para a porta. O ar estava tão frio que respirar doía, mas era uma dor tão boa e doce. Abaixou-se para sair do salão.
– Goiva? – chamou. – Goiva, matei-o. Gil...
Ela estava em pé, encostada ao represeiro, com o menino nos braços. As criaturas rodeavam-na. Eram uma dúzia, uma vintena, mais... algumas tinham sido selvagens um dia, e ainda usavam peles... mas as que tinham sido irmãos de Sam eram mais numerosas. Viu Lark, o homem das Irmãs, Pé-Leve, Ryles. O quisto no pescoço de Chett estava negro e as pústulas estavam cobertas por uma fina película de gelo. E aquele parecia-se com Hake, embora fosse difícil ter certeza com metade da cabeça faltando. Tinham despedaçado o pobre garrano, e estavam arrancando suas entranhas com mãos que pingavam vermelho. Vapor esbranquiçado subia da barriga dele.
Sam soltou um gemido.
– Não é justo...
“
“
Sam correu, com nuvens de geada explodindo de sua boca. A toda a volta, as criaturas brandiam os braços contra as asas negras e os bicos certeiros que as atacavam, caindo num silêncio arrepiante sem soltar um grunhido ou um grito. Mas os corvos ignoravam Sam. Pegou na mão de Goiva e puxou-a para longe do represeiro.
– Temos de ir.
– Mas para onde? – Goiva seguiu-o correndo, trazendo o bebê. – Eles mataram o cavalo, como vamos...
–
– Aqui – disse o cavaleiro, estendendo uma mão enluvada para puxar Goiva para trás de si. Então foi a vez de Sam.
– Muito obrigado – bufou. Só quando agarrou a mão oferecida percebeu que o cavaleiro não usava luvas. A mão era negra e fria, com dedos duros como pedra.
ARYA
Quando atingiram o topo da cumeeira e viram o rio, Sandor Clegane puxou as rédeas com força e praguejou.
A chuva caía de um céu negro de ferro, espicaçando a torrente verde e marrom com dez mil espadas.
Arya contorceu-se na sela e sentiu os elos da cota de malha do Cão de Caça enterrando-se em suas costas. Os braços dele rodeavam-na; no esquerdo, o queimado, tinha colocado um braçal de aço para protegê-lo, mas vira-o trocando as ataduras e o braço por baixo continuava em carne viva e cheio de pus. Mas se as queimaduras doíam, Sandor Clegane não demonstrava.
– Isto é a Torrente da Água Negra? – tinham cavalgado tanto pela chuva e na escuridão, através de bosques sem trilhas e aldeias sem nome, que Arya perdera qualquer noção de onde se encontravam.
– É um rio que temos de atravessar, isso é tudo que você precisa saber.