Foram encontrar o Magnar em pé, embaixo da árvore que crescia no chão da sala comum da estalgem. Seu prisioneiro estava ajoelhado diante da lareira, cercado por lanças de madeira e espadas de bronze. Observou a aproximação de Jon, mas nada disse. A chuva corria pelas paredes e tamborilava nas poucas folhas que ainda se prendiam à árvore, enquanto a fumaça subia rodopiando, densa, da fogueira.
– Ele tem de morrer – disse Styr, o Magnar. – Trate disso, corvo.
O velho não proferiu uma palavra. Limitou-se a olhar para Jon, que estava entre os selvagens. Por entre a chuva e a fumaça, iluminado apenas pelo fogo, não podia ter visto que Jon estava todo vestido de negro exceto pelo manto de pele de ovelha.
Jon tirou Garralonga da bainha. A chuva lavou o aço e a luz da fogueira traçou uma lúgubre linha alaranjada ao longo do gume.
– Por que hesita? – disse Styr. – Mate-o e acabou.
Mesmo então, o cativo não falou. Podia ter dito “Misericórdia”, ou “Roubou-me o cavalo, o dinheiro, a comida, deixe-me ficar com a vida”, ou “Não, por favor, não lhe fiz nenhum mal”. Podia ter dito mil coisas, ou chorado, ou apelado aos seus deuses. Mas nenhuma palavra poderia salvá-lo agora. Ele talvez soubesse disso. Portanto, manteve a língua sob controle e olhou para Jon, com acusação e súplica no olhar.
– Vá, Jon Snow – insistiu Ygritte. – Precisa matá-lo. Pra provar que não é um corvo, e sim um membro do povo livre.
– Um velho sentado junto a uma fogueira?
– O Orel tam’ém tava sentado junto a uma fogueira. E você o matou bem depressa. – O olhar que ela lhe lançou então foi duro. – E tam’ém queria me matar até ver que eu era uma mulher. E eu tava dormindo.
– Isso foi diferente. Vocês eram soldados... sentinelas.
– Sim, e os corvos não queriam ser vistos. É como a gente agora. É a mesma coisa. Mate-o.
Jon deu as costas ao homem.
– Não.
O Magnar aproximou-se, alto, frio, perigoso.
– Eu disse que sim. Sou eu quem comanda aqui.
– Você comanda os Thenns – disse-lhe Jon –, não o povo livre.
– Não vejo povo livre nenhum. Vejo um corvo e uma mulher de corvo.
– Eu não sou mulher de corvo coisa nenhuma! – Ygritte arrancou a faca de dentro da bainha. Três passos rápidos e puxou pelos cabelos a cabeça do velho para trás e abriu sua garganta de orelha a orelha. Nem mesmo na morte o homem gritou. – Você não sabe
O Magnar disse qualquer coisa no Idioma Antigo. Podia estar mandando os Thenns matarem Jon ali mesmo, mas ele nunca saberia se isso era verdade. Um relâmpago tombou do céu, um imenso raio azul-esbranquiçado que atingiu o topo da torre do lago. Conseguiram cheirar sua fúria, e quando o trovão chegou, pareceu sacudir a noite.
E a morte saltou para o meio deles.