Céus de um azul carregado e ventos fortes acompanharam Dany de volta à sua tropa. O profundo fosso que iria cercar o acampamento já estava meio cavado, e a floresta encontrava-se cheia de Imaculados que cortavam galhos de vidoeiro para afiar e transformar em estacas. Os eunucos não conseguiam dormir em um acampamento que não estivesse fortificado, ou pelo menos era isso que Verme Cinzento insistia em dizer. Ele estava lá, vigiando o trabalho. Dany parou um momento para conversar com o eunuco.
– Yunkai preparou-se para a batalha.
– Isso é bom, Vossa Graça. Estes têm sede de sangue.
Quando ordenou aos Imaculados para selecionarem oficiais de entre as suas fileiras, Verme Cinzento foi o escolhido da esmagadora maioria para o posto mais elevado. Dany colocou Sor Jorah acima dele, a fim de treiná-lo para o comando, e o cavaleiro exilado dizia que, até agora, o jovem eunuco era duro mas justo, rápido em aprender, incansável e totalmente inflexível em sua atenção aos detalhes.
– Os Sábios Mestres reuniram um exército de escravos para nos defrontar.
– Um escravo em Yunkai aprende a natureza dos sete suspiros e as dezesseis posições do prazer, Vossa Graça. Os Imaculados aprendem a natureza das três lanças. O seu Verme Cinzento espera mostrar-lhe.
Uma das primeiras coisas que Dany fez após a queda de Astapor foi abolir o costume de dar aos Imaculados novos nomes de escravo todos os dias. A maioria daqueles que tinham nascido livres voltou aos nomes com que nasceu; pelo menos os que ainda se lembravam deles. Outros adotaram nome de heróis ou deuses, e às vezes armas, pedras preciosas e até flores, o que resultou em soldados com nomes muito peculiares aos ouvidos de Dany. Verme Cinzento permaneceu Verme Cinzento. Quando lhe perguntou por quê, ele disse:
– É um nome de sorte. O nome com que este nasceu estava amaldiçoado. Era o nome que ele tinha quando foi escravizado. Mas Verme Cinzento foi o nome que coube a este no dia em que Daenerys Filha da Tormenta o libertou.
– Se houver uma batalha, que Verme Cinzento mostre sabedoria além de valor – disse-lhe Dany. – Poupe qualquer escravo que fugir ou que jogue fora a sua arma. Quanto menos forem mortos, mais ficarão para se juntar a nós depois.
– Este vai se lembrar.
– Eu sei que sim. Venha à minha tenda ao meio-dia. Quero você lá com os outros oficiais quando tratar com os capitães mercenários. – Dany esporeou a sua prata e dirigiu-se ao acampamento.
Dentro do perímetro que os Imaculados tinham estabelecido, as tendas estavam sendo erguidas em fileiras ordenadas, com seu grande pavilhão dourado no centro. Havia um segundo acampamento logo depois do dela; cinco vezes maior, irregular e caótico, esse segundo acampamento não tinha fossos, não tinha tendas, não tinha sentinelas, não tinha fileiras de cavalos. Aqueles que possuíam cavalos ou mulas dormiam ao lado dos animais, por temerem que fossem roubados. Cabras, ovelhas e cães meio famintos vagueavam livremente entre hordas de mulheres, crianças e velhos. Dany deixara Astapor nas mãos de um conselho de antigos escravos liderado por um curandeiro, um erudito e um sacerdote. Todos homens sensatos, pensava, e justos. Mesmo assim, dezenas de milhares preferiram segui-la para Yunkai em vez de permanecer em Astapor.
A colcha de retalhos que era a tropa dos libertados fazia a sua parecer pequena, mas eles eram mais um fardo do que uma vantagem. Talvez um em cem possuísse um burro, um camelo ou um boi; a maior parte trazia armas, obtidas pela pilhagem do arsenal de algum dos negociantes de escravos, mas só um em dez era suficientemente forte para lutar, e nenhum se encontrava treinado. Por onde passavam, deixavam a terra nua, como gafanhotos de sandálias. Mas Dany não conseguia se convencer a abandoná-los, como Sor Jorah e seus companheiros de sangue sugeriam.