Cada dia passado entre os selvagens tornava mais difícil aquilo que tinha de fazer. Teria de arranjar alguma maneira de trair aqueles homens e, quando o fizesse, eles morreriam. Não desejara a sua amizade, tal como não desejara o amor de Ygritte. E no entanto... Os Thenns expressavam-se no Idioma Antigo e raramente falavam com ele, mas era diferente com os homens de Jarl, com os homens que tinham escalado a Muralha. Jon começava a conhecê-los, apesar de não querer: o magro e calmo Errok, o sociável Grigg, o Bode, os rapazes Quort e Bodger, o Dan de Cânhamo, o cordoeiro. O pior de todos era Del, um jovem com cara de cavalo e quase da mesma idade de Jon, que costumava falar em tom sonhador da garota selvagem que pretendia raptar.
– Ela é sortuda, como a sua Ygritte. É beijada pelo fogo.
Jon tinha de morder a língua. Não queria saber nada a respeito da garota de Del ou da mãe de Bodger, do lugar junto ao mar de onde Henk, o Elmo, tinha vindo, de como Grigg ansiava por visitar os homens verdes na Ilha das Caras, ou daquela ocasião em que um alce obrigou Dedo-do-Pé a subir em uma árvore. Não queria ouvir falar do furúnculo no traseiro do Grande Furúnculo, nem da quantidade de cerveja que Polegares de Pedra conseguia beber ou da forma como o irmão mais novo de Quort havia lhe implorado que não partisse com Jarl. Quort não podia ter mais de catorze anos, embora já tivesse raptado uma mulher e tivesse um filho a caminho.
– Pode ser que ele nasça num castelo qualquer – vangloriava-se o rapaz. – Nascido num castelo, como um senhor! – Estava muito arrebatado pelos “castelos” que tinham visto, designando por essa palavra as torres de vigia.
Jon interrogava-se sobre onde estaria agora o Fantasma. Teria ido para Castelo Negro, ou andaria vagueando pelos bosques com alguma alcateia? Não tinha qualquer percepção do lobo gigante, nem mesmo em sonhos. Isso fazia-o sentir como se parte de si mesmo tivesse sido cortada. Até com Ygritte dormindo ao seu lado sentia-se só. Não queria morrer sozinho.
Nessa tarde, as árvores começaram a se tornar mais esparsas, e o grupo marchou para leste, sobre planícies suavemente onduladas. Em volta deles, a grama erguia-se à altura da cintura, e plantações de milho selvagem oscilavam lentamente quando o vento soprava, mas a maior parte do dia foi quente e ensolarado. No entanto, à medida que o pôr do sol se aproximava, nuvens começaram a se acumular, ameaçadoras, a ocidente. Em pouco tempo, engoliram o sol laranja, e Lenn previu que uma tempestade violenta se aproximava. A mãe dele era uma bruxa dos bosques, por isso todos concordavam que o homem possuía um dom para prever o tempo.
– Há uma aldeia aqui perto – disse Grigg, o Bode, ao Magnar. – A quatro ou cinco quilômetros. Poderíamos arranjar abrigo lá. – Styr concordou de imediato.
Foi já bem depois de escurecer e de a tempestade eclodir que chegaram ao lugar. A aldeia encontrava-se junto a um lago e estava abandonada havia tanto tempo que a maior parte das casas tinha ruído. Até a pequena estalagem de madeira que um dia devia ter sido uma visão bem-vinda para os viajantes estava meio derrubada e sem teto.
Errok e Del avançaram cautelosamente para explorar as ruínas, mas Del retornou quase de imediato. Styr fez a coluna parar e mandou uma dúzia de seus Thenns em frente, a trote, de lanças nas mãos. Então Jon também já tinha visto: o clarão de uma fogueira, avermelhando a chaminé da estalagem.
Mas a luta tinha terminado.
– Era só um homem – disse Errok quando voltou. – Um velho com um cavalo.
O Magnar gritou ordens no Idioma Antigo e uma vintena de seus Thenns espalhou-se para estabelecer um perímetro em volta da aldeia, enquanto outros rondaram por entre as casas, a fim de se certificarem de que ninguém mais estava escondido entre o mato e as pedras caídas. Os outros aglomeraram-se na estalagem sem teto, empurrando-se uns aos outros para se aproximarem da lareira. Os galhos partidos que o velho estivera queimando pareciam gerar mais fumaça do que calor, mas qualquer calor era bem-vindo numa noite selvagem e chuvosa como aquela. Dois dos Thenns tinham jogado o homem ao chão e estavam revistando suas coisas. Outro segurava seu cavalo, enquanto outros três saqueavam seus alforjes.