– Com meus próprios olhos. Depois da batalha, quando estava perdido em desespero, a Senhora Melisandre pediu-me para fitar o fogo da lareira. A chaminé puxava o ar com força, e pedacinhos de cinzas erguiam-se do fogo. Eu fitei-os, sentindo-me um pouco tolo, mas ela me pediu para olhar mais fundo, e... as cinzas eram brancas, erguendo-se na corrente ascendente de ar, mas de repente era como se estivessem caindo.
– E foi o que fez – disse Melisandre.
A convicção na voz do rei assustou Davos profundamente.
– Um monte numa floresta... silhuetas na neve... eu não...
– Significa que a batalha começou – disse Melisandre. – A areia corre agora mais depressa pela ampulheta, e o tempo do homem sobre a terra está quase no fim. Temos de agir com ousadia, senão toda a esperança estará perdida. Westeros tem de se unir sob seu único rei verdadeiro, o príncipe que foi prometido, Senhor de Pedra do Dragão e escolhido de R’hllor.
– Então R’hllor faz estranhas escolhas. – O rei fez uma careta, como quem saboreia algo desagradável. – Por que eu e não meus irmãos? Renly e seu pêssego. Em meus sonhos, vejo o sumo escorrendo da boca dele, e o sangue da garganta. Se tivesse cumprido seu dever para com o irmão, teríamos esmagado Lorde Tywin. Uma vitória de que até Robert poderia se orgulhar. Robert... – Seus dentes rangeram, de um lado para o outro. – Ele também aparece em meus sonhos. Rindo. Bebendo. Vangloriando-se. Eram as coisas que ele fazia melhor. Isso, e lutar. Nunca o venci em nada. O Senhor da Luz devia ter feito de Robert o seu campeão. Por que eu?
– Porque é um homem reto – disse Melisandre.
– Um homem reto. – Stannis tocou com um dedo a bandeja de prata tampada. – Com sanguessugas.
– Sim – falou Melisandre –, mas tenho de lhe dizer de novo, esta não é a maneira certa.
– Jurou que daria certo. – O rei parecia zangado.
– Dará... e não dará.
– Ou uma coisa ou a outra.
– Ambas.
– Fale com sentido comigo, mulher.
– Quando os fogos falarem mais claramente, o mesmo farei eu. Há verdade nas chamas, mas nem sempre é fácil ver. – O grande rubi em sua garganta bebia fogo do clarão do braseiro. – Dê-me o garoto, Vossa Graça. É a maneira mais segura. A melhor maneira. Dê-me o garoto e acordarei o dragão de pedra.
– Já lhe disse que não.
– Ele é apenas um garoto ilegítimo, contra todos os garotos de Westeros e todas as garotas também. Contra todas as crianças que podem nunca chegar a nascer, em todos os reinos do mundo.
– O garoto é inocente.
– O garoto conspurcou sua cama nupcial e, se assim não fosse, certamente teria filhos seus. Ele envergonhou-o.
– Quem fez isso foi
– É do sangue de seu irmão – disse Melisandre. – Do sangue de um rei. Só o sangue de um rei pode acordar o dragão de pedra.
Stannis rangeu os dentes.
– Não quero ouvir mais nada sobre isso. Os dragões acabaram-se. Os Targaryen tentaram trazê-los de volta meia dúzia de vezes. E fizeram papel de bobos, ou de cadáveres. Cara-Malhada é o único bobo de que precisamos neste rochedo esquecido por deus. Você tem as sanguessugas. Faça o seu trabalho.
Melisandre inclinou rigidamente a cabeça e disse:
– Às ordens de meu rei. – Enfiou a mão direita na manga esquerda e atirou um punhado de pó dentro do braseiro. Os carvões rugiram. Enquanto chamas pálidas se contorciam por cima deles, a mulher vermelha pegou o prato de prata e levou-o ao rei. Davos viu-a levantar a tampa. Por baixo dela encontravam-se três grandes sanguessugas negras, inchadas com sangue.
Stannis estendeu uma mão, e seus dedos fecharam-se em volta de uma das sanguessugas.
– Diga o nome – ordenou Melisandre.
A sanguessuga retorcia-se na mão do rei, tentando se prender a um de seus dedos.
– O usurpador – disse ele. – Joffrey Baratheon. – Quando atirou a sanguessuga no fogo, ela enrolou-se entre os carvões como uma folha de outono e incendiou-se.
Stannis agarrou a segunda.
– O usurpador – declarou, dessa vez mais alto. – Balon Greyjoy. – Deu-lhe um piparote ligeiro para dentro do braseiro, e o corpo do animal abriu-se e crepitou. O sangue jorrou de seu interior, silvando e fumegando.
A última sanguessuga estava na mão do rei. Estudou aquela por um momento, enquanto se contorcia entre seus dedos.
– O usurpador – disse por fim. – Robb Stark. – E atirou-a para as chamas.
JAIME