– Não é questão de desejo. O trono é meu, como herdeiro de Robert. Essa é a lei. Depois de mim, deve passar para a minha filha, a menos que Selyse finalmente me dê um filho. – Passou três dedos levemente pela mesa, sobre as camadas de verniz liso e duro, escurecido pela idade. – Eu
– Quatro de meus filhos arderam na Água Negra. Ela entregou-os às chamas.
– Está sendo injusto com Melisandre. Aqueles incêndios não foram obra dela. Amaldiçoe o Duende, amaldiçoe os piromantes, amaldiçoe aquele idiota do Florent que avançou com a minha frota para dentro das mandíbulas de uma armadilha. Ou amaldiçoe-me por meu orgulho obstinado, por mandá-la embora quando mais precisava dela. Mas Melisandre não. Ela continua sendo minha fiel servidora.
– Meistre Cressen era seu fiel servidor. Ela matou-o, tal como matou Sor Cortnay Penrose e seu irmão Renly.
– Agora soa como um tolo – protestou o rei. – Ela
– Sim. Melisandre sabe que não sou amigo dela ou de seu deus vermelho.
– Mas é meu amigo. Ela também sabe disso. – Fez sinal para que Davos se aproximasse. – O garoto está doente. Meistre Pylos tem andado sangrando-o.
– O garoto? – os pensamentos de Davos rumaram ao seu Devan, o escudeiro do rei. – Meu filho, senhor?
– Devan? Bom garoto. Tem nele muito de você. É o bastardo de Robert que está doente, o garoto que encontramos em Ponta Tempestade.
– Falei com ele no Jardim de Aegon.
– Tal como ela quis. Tal como ela viu. – Stannis suspirou. – O garoto encantou-o? Tem esse dom. Tirou isso do pai, com o sangue. Sabe que é filho de um rei, mas prefere esquecer que é ilegítimo. E adora Robert, tal como Renly adorava quando era novo. O meu real irmão se fazia de pai amigo durante as suas visitas a Ponta Tempestade, e havia presentes... espadas, pôneis e mantos forrados de peles. Trabalho do eunuco, todos eles. O garoto escrevia para a Fortaleza Vermelha, cheio de agradecimentos, e Robert ria e perguntava a Varys o que tinha enviado naquele ano. Renly não era melhor. Deixou a educação do garoto a castelões e meistres, e todos eles caíram vítimas de seu encanto. Penrose preferiu morrer a entregá-lo. – O rei rangeu os dentes. – Isso ainda me enfurece. Como ele pôde pensar que eu iria fazer mal ao garoto? Escolhi Robert, não escolhi? Quando esse duro dia chegou. Escolhi o sangue em detrimento da honra.
– Espero que o jovem Edric se recupere rapidamente.
Stannis sacudiu uma mão, colocando de lado a sua preocupação.
– É um resfriado, nada mais. Ele tosse, tem arrepios e febre. Em breve, Meistre Pylos irá deixá-lo bom. Em si mesmo, o garoto não é nada, entende? Mas nas veias dele corre o sangue de meu irmão. Há poder no sangue de um rei, diz ela.
Davos não teve de perguntar quem
Stannis tocou a Mesa Pintada.
– Olhe-o, Cavaleiro das Cebolas. Meu reino de direito. Meu Westeros. – Passou uma mão pelo mapa. – Essa conversa de Sete Reinos é uma loucura. Aegon compreendeu isso há trezentos anos, quando estava onde nos encontramos agora. Pintaram esta mesa por ordem dele. Pintaram rios e baías, colinas e montanhas, castelos, cidades e vilas francas, lagos, pântanos e florestas... mas nenhuma fronteira.
– Um rei – concordou Davos. – Um rei significa a paz.