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– Silêncio – ordenou Stannis. – Sor Davos, prossiga, quero ouvir suas razões.
Davos virou-se para encarar Sor Axell.
– Diz que devíamos mostrar ao reino que ainda não estamos acabados. Dar um golpe. Sim, fazer a guerra... mas com que inimigo? Não vai encontrar nenhum Lannister na Ilha da Garra.
– Encontraremos
Davos ignorou a provocação.
– Não duvido de que Lorde Celtigar tenha dobrado o joelho ao jovem Joffrey. É um homem velho e acabado, que nada mais deseja do que terminar seus dias no seu castelo, bebendo seu bom vinho de uma de suas taças cravejadas de joias. – Voltou-se novamente para Stannis. – E, no entanto, veio quando o chamou, senhor. Veio, com seus navios e suas espadas. Esteve ao seu lado em Ponta Tempestade quando Lorde Renly caiu sobre nós, e seus navios subiram a Água Negra. Seus homens lutaram pelo senhor, mataram pelo senhor,
– Mas
– Quando ele o fez – repetiu Davos. – Eram seus homens. Estavam juramentados a ele. Que alternativa foi dada a eles?
– Todo homem tem alternativas. Podiam ter se recusado. Alguns se recusaram e morreram por isso. Mas morreram honestos e leais.
– Alguns homens são mais fortes do que outros. – Era uma resposta fraca, e Davos sabia disso. Stannis Baratheon era um homem com determinação de ferro, que nem compreendia nem perdoava a fraqueza nos outros.
– É dever de todos os homens permanecerem leais ao seu legítimo rei, mesmo se o senhor que servem se revela falso – declarou Stannis num tom que não admitia discussões.
Um desvario desesperado dominou Davos, uma temeridade próxima da loucura.
– Tal como o senhor permaneceu leal ao Rei Aerys quando seu irmão convocou os vassalos? – deixou escapar.
Seguiu-se um pesado silêncio, até que Sor Axell gritou:
– Traição! – e desembainhou o punhal. – Vossa Graça, ele diz essa infâmia na sua cara!
Davos ouvia Stannis rangendo os dentes. Uma veia latejava, azul e inchada, na testa do rei. Os olhos dos dois encontraram-se.
– Guarde essa faca, Sor Axell. E deixe-nos.
– Se Vossa Graça desejar...
– Desejo que vá embora – disse Stannis. – Saia da minha presença e mande-me Melisandre.
– Às suas ordens. – Sor Axell voltou a embainhar a faca, fez uma reverência e apressou-se em direção à porta. Suas botas ressoavam contra o chão, furiosas.
– Sempre abusou de minha indulgência – preveniu-o Stannis quando ficaram sozinhos. – Posso encurtar sua língua tão facilmente como encurtei seus dedos, contrabandista.
– Eu pertenço ao senhor, Vossa Graça. Por isso a língua é sua, para fazer com ela o que quiser.
– Pois é – disse ele, mais calmo. – E eu quero que ela fale a verdade. Mesmo que a verdade às vezes tenha um gosto amargo.
– Então por que é que o senhor o deseja? – perguntou-lhe Davos.