Cersei Lannister ignorou a pergunta.
– O manto – ordenou, e as mulheres trouxeram-no: um longo manto de veludo branco carregado de pérolas. Um feroz lobo gigante estava bordado nele em fio de prata. Sansa olhou-o com súbito temor. – As cores de seu pai – disse Cersei, enquanto o prendiam em volta do pescoço da garota com uma delicada corrente de prata.
– É mais bonita com a boca fechada, Sansa – disse-lhe Cersei. – Venha já, o septão está à espera. E os convidados do casamento também.
– Não – exclamou Sansa. –
– Sim. É protegida da coroa. O rei faz as vezes de seu pai, uma vez que seu irmão é um traidor proscrito. Isso significa que tem todo o direito de dispor de sua mão. Vai se casar com meu irmão Tyrion.
– Não vou. –
– Compreendo a sua relutância. Chore se precisar. Em seu lugar, eu provavelmente arrancaria os cabelos. Ele é um desprezível duendezinho, não há dúvida, mas vai mesmo se casar com ele.
– Não pode me obrigar.
– Claro que podemos. Pode vir calmamente e proferir seus votos como é próprio de uma senhora, ou pode lutar, gritar e dar um espetáculo que deixe os cavalariços aos risinhos, mas seja como for vai acabar casada e na cama com o seu esposo. – A rainha abriu a porta. Sor Meryn Trant e Sor Osmund Kettleblack esperavam lá fora, com a armadura de escamas brancas da Guarda Real. – Escoltem a Senhora Sansa até o septo – disse-lhes. – Carreguem-na, se for preciso, mas tentem não rasgar o vestido. Foi muito caro.
Sansa tentou fugir, mas a aia de Cersei apanhou-a antes de ter percorrido um metro. Sor Meryn Trant dirigiu-lhe um olhar que a fez encolher-se de medo, mas Kettleblack tocou quase gentilmente nela e disse:
– Faça o que lhe dizem, querida, não será assim tão mau. Espera-se que os lobos sejam bravos, não é?
– Eu vou.
Cersei sorriu.
– Eu sabia que sim.
Mais tarde não conseguiria se lembrar de ter saído do quarto, de descer os degraus ou de atravessar o pátio. O simples ato de pôr um pé à frente do outro pareceu tomar toda a sua atenção. Sor Meryn e Sor Osmund caminhavam ao seu lado, usando mantos tão claros quanto o seu, faltando-lhes apenas as pérolas e o lobo gigante que fora de seu pai. O próprio Joffrey encontrava-se à sua espera, nos degraus do septo do castelo. O rei resplandecia de carmesim e ouro, com a coroa na cabeça.
– Hoje sou seu pai – anunciou.
– Não é – irritou-se ela. – Nunca será.
O rosto do rei ensombrou-se.
– Sou. Sou seu pai, e posso casá-la com quem eu desejar. Com
O coração de Sansa deu um salto.
– Por favor, Vossa Graça – suplicou. – Se alguma vez me amou nem que fosse um pouquinho, não me obrigue a casar com seu...
– ... tio? – Tyrion Lannister atravessou as portas do septo. – Vossa Graça – disse a Joffrey. – Tenha a gentileza de me conceder um momento a sós com a Senhora Sansa, por favor.
O rei estava prestes a recusar, mas a mãe lançou-lhe um olhar penetrante. Afastaram-se alguns metros.
Tyrion vestia um gibão de veludo negro coberto de arabescos dourados, botas cujos canos chegavam às suas coxas e que acrescentavam sete centímetros à sua altura, uma corrente de rubis e cabeças de leão. Mas o rasgão em seu rosto estava vermelho e em carne viva, e o nariz era uma hedionda escara.
– Está muito bela, Sansa – disse-lhe.
– É bondade sua, senhor. – Não sabia o que mais responder.