A essa altura, os estábulos e a sala comum já estavam reduzidos a brasas fumegantes, mas o fogo ainda ardia furiosamente ao longo da Muralha, subindo degrau por degrau e um patamar após o outro. De tempos em tempos ouviam um gemido e logo um
Encontrou Quort morto, e Polegares de Pedra moribundo. Encontrou alguns Thenns que nunca chegara realmente a conhecer mortos e moribundos. Encontrou Grande Furúnculo, fraco de todo o sangue que tinha perdido, mas ainda vivo.
Encontrou Ygritte estatelada numa mancha de neve velha por baixo da Torre do Senhor Comandante, com uma flecha entre os seios. Os cristais de gelo tinham pousado em seu rosto e, ao luar, parecia que estava usando uma cintilante máscara de prata.
Jon viu que a flecha era negra, mas tinha penas brancas de pato.
Quando ajoelhou-se na neve ao lado dela, Ygritte abriu os olhos.
– Jon Snow – disse ela, muito baixo. Parecia que a flecha tinha atingido um pulmão. –
– Sim. – Jon pegou na mão dela.
– Bom – sussurrou ela. – Queria ver um castelo de verdade antes... antes de...
– Vai ver uma centena de castelos – prometeu-lhe ele. – A batalha acabou. Meistre Aemon vai cuidar de você. – Tocou os cabelos dela. – É beijada pelo fogo, lembra? Sortuda. Vai ser preciso mais do que uma flecha para matá-la. Aemon vai puxá-la para fora e fazer um curativo em você, e depois arranjamos um pouco de leite de papoula para suas dores.
Ela limitou-se a sorrir.
– Lembra daquela gruta? Devíamos ter ficado naquela gruta. Eu disse.
– Vamos voltar à gruta – disse ele. – Não vai morrer, Ygritte. Não vai.
– Oh. – Ygritte envolveu o rosto dele com a mão. – Você não sabe nada, Jon Snow – suspirou, e morreu.
BRAN
É só mais um castelo vazio – disse Meera Reed ao olhar a desolação de entulho, ruínas e ervas daninhas.
– Hodor. – Hodor deslocou o peso de uma perna para a outra, levando Bran atrás. Estava cansado. Tinham caminhado durante horas.
Jojen fitou-o com seus olhos verde-escuros.
– Não há nada aqui que nos faça mal, Vossa Graça.
Bran não tinha tanta certeza. Fortenoite surgia em algumas das histórias mais assustadoras da Velha Ama. Tinha sido ali que o Rei da Noite reinou, antes de seu nome ter sido varrido da memória dos homens. Foi ali que o Cozinheiro Ratazana serviu ao rei ândalo seu empadão de príncipe e bacon, que as setenta e nove sentinelas mantiveram-se de vigia, que o bravo jovem Danny Flint foi violado e assassinado. Era esse o castelo onde o Rei Sherrit rogou a sua praga sobre os ândalos de antigamente, onde os jovens aprendizes tinham enfrentado a coisa saída da noite, onde o cego Symeon Olhos-de-Estrela viu os mastins do inferno lutando. Machado Louco caminhou um dia por aqueles pátios e subiu àquelas torres, assassinando seus irmãos na calada da escuridão.
Tudo aquilo tinha acontecido havia centenas de milhares de anos, com certeza, e algumas daquelas coisas talvez nem tivessem acontecido de verdade. Meistre Luwin dizia sempre que as histórias da Velha Ama não deviam ser engolidas inteiras. Mas, uma vez, o tio viera visitar o pai, e Bran interrogou-o a respeito de Fortenoite. Benjen Stark não chegou a dizer que as histórias eram verdadeiras, mas também não disse que não eram; limitou-se a encolher os ombros e declarar que haviam abandonado Fortenoite há duzentos anos. Como se isso fosse resposta.