Jon voltou a encaixar, puxar e soltar, mas só havia um Jon e um Cetim, contra uns bons sessenta ou setenta Thenns que arremetiam escadas acima, matando enquanto avançavam, bêbados de vitória. No quarto patamar, três irmãos de manto negro resistiram, ombro com ombro, de espadas na mão, e a batalha passou de novo, brevemente, a um corpo a corpo. Mas eles eram só três, e em pouco tempo a maré de selvagens os submergiu e seu sangue pingou degraus abaixo.
“Um homem nunca está tão vulnerável numa batalha como quando foge. Um homem em fuga é para um soldado como um animal ferido. Alimenta sua sede de sangue”, tinha dito certo dia Lorde Eddard a Jon. Os arqueiros no quinto patamar fugiram antes mesmo de a batalha chegar até eles. Era uma debandada, uma rubra debandada.
– Vá buscar os archotes – disse Jon a Cetim. Havia quatro empilhados junto à fogueira, com as pontas enroladas em trapos empapados em azeite. Havia também uma dúzia de flechas incendiárias. O rapaz de Vilavelha enfiou um archote na fogueira até deixá-lo ardendo bem, e trouxe os outros debaixo do braço, por acender. Parecia de novo assustado, e tinha motivos para isso. Jon também estava assustado.
Foi então que viu Styr. O Magnar estava subindo a barricada, por cima das sacas de cereais rasgadas, barris quebrados e dos corpos de amigos e inimigos. Sua armadura de escamas de bronze cintilava, escura, à luz das chamas. Styr tinha tirado o elmo para estudar a cena de seu triunfo, e o filho da puta careca e sem orelhas estava sorrindo. Na mão, trazia uma longa lança de represeiro com uma ornamentada ponta de bronze. Quando viu o portão, apontou para ele com a lança e ladrou qualquer coisa no Idioma Antigo para a meia dúzia de Thenns que o rodeava.
Lá em cima soou um berrante de guerra, um sopro longo e grave. Não no topo da Muralha, mas no nono patamar, a cerca de sessenta metros de altura, onde Donal Noye se encontrava.
Jon encaixou uma flecha incendiária no arco, e Cetim acendeu-a com o archote. Aproximou-se do parapeito, puxou, apontou, soltou. Fitas de chamas perseguiram a haste, que ganhou velocidade enquanto caía e atingiu o alvo com um baque surdo, crepitando.
Não era Styr. Eram os degraus. Ou, mais precisamente, os barris, barricas e sacas que Donal Noye havia empilhado
Lá em cima, outro incêndio desabrochava. Os velhos degraus de madeira tinham bebido o óleo como esponjas, e Donal Noye empapara-os, do nono patamar até o sétimo. Jon só podia ter esperança de que a maior parte de sua gente tivesse subido até um lugar seguro antes de Noye arremessar os archotes. Os irmãos negros, pelo menos, sabiam do plano, mas os aldeões não.
O vento e o fogo fizeram o resto. Tudo que Jon precisou fazer foi observar. Com chamas por baixo e por cima, os selvagens não tinham para onde ir. Alguns continuaram a subir, e morreram. Alguns desceram, e morreram. Alguns ficaram onde estavam. Também morreram. Muitos saltaram dos degraus antes de se incendiarem, e morreram da queda. Vinte e poucos Thenns ainda se apertavam uns contra os outros entre os incêndios quando o gelo rachou devido ao calor e todo o terço inferior da escada se desprendeu, com várias toneladas de gelo. Essa foi a última vez que Jon viu Styr, o Magnar de Thenn.
Jon pediu a Cetim para ajudá-lo a descer até o pátio. A perna ferida doía tanto que quase não conseguia andar, mesmo com a muleta.
– Traga a tocha – disse ao rapaz de Vilavelha. – Preciso procurar uma pessoa. – Nos degraus havia principalmente Thenns. Certamente alguns membros do povo livre tinham escapado. Gente de Mance, não do Magnar. Ela podia ter sido um deles. Por isso desceram, passando por corpos de homens que tinham testado o alçapão, e Jon ficou vagueando pela escuridão com a muleta debaixo de um braço e o outro em volta dos ombros de um rapaz que tinha sido prostituto em Vilavelha.