Dick Follard era surdo como uma pedra, mas o nariz funcionava bastante bem. Os bolos de leite ainda estavam quentes do forno quando ele enfiou a mão no cesto e tirou um. Encontrou também um pote de manteiga e, com o punhal, espalhou um pouco no bolo.
– Passas – anunciou em tom feliz. – E também frutas secas. – Tinha uma pronúncia carregada, mas era bastante fácil compreendê-lo depois de se habituar a ela.
– Pode ficar com os meus – disse Cetim. – Não tenho fome.
– Coma – disse-lhe Jon. – Não sabemos quando haverá outra oportunidade. – Escolheu dois bolos para si. As frutas secas eram pinhões e, além das passas, havia também pedaços de maçã.
– Os selvagens vêm hoje, Lorde Snow? – perguntou Owen.
– Se vierem, saberá – disse Jon. – Fique à escuta dos berrantes.
– Dois. Dois é para os selvagens. – Owen era alto, de cabelos muito loiros e amigável, um trabalhador incansável, e surpreendentemente hábil quando se tratava de trabalhar a madeira, consertar catapultas e coisas do gênero. Mas, tal como ele alegremente afirmava, a mãe deixara-o cair de cabeça quando era bebê, e metade dos seus miolos tinham se derramado pela orelha.
– Lembra-se para onde deve ir? – perguntou-lhe Jon.
– Donal Noye diz que devo ir para as escadas. Devo subir até o terceiro patamar e disparar a besta contra os selvagens se tentarem escalar a barreira. O
Não valia a pena contar-lhe que Robert Baratheon estava morto. Esqueceria disso mais uma vez.
– Meistre Aemon enviou-lhe um pássaro – concordou Jon. Aquilo pareceu deixar Owen feliz.
Meistre Aemon tinha enviado um monte de pássaros... não a um rei, mas a quatro.
Bem, os corvos podiam ter asas, mas lordes e reis não as tinham. Se a ajuda estava a caminho, não chegaria hoje.
À medida que a manhã foi se transformando em tarde, a fumaça de Vila Toupeira foi soprada para longe e o céu ao sul ficou de novo limpo.
Clydas e Meistre Aemon subiram na gaiola do guincho até a segurança do topo da Muralha, e a maior parte das esposas de Vila Toupeira também. Homens com manto negro patrulhavam incansavelmente os topos das torres e gritavam uns aos outros por cima dos pátios. O Septão Cellador liderou os homens da barricada numa prece, suplicando ao Guerreiro que lhes desse forças. Dick Surdo Follard enrolou-se sob seu manto e adormeceu. Cetim percorreu uma centena de léguas aos círculos, ao redor das ameias. A Muralha chorou e o sol atravessou lentamente um céu de um azul intenso. Perto do cair da noite, Owen Idiota voltou com um pão preto e um balde do melhor carneiro de Hobb, cozido num espesso caldo de cerveja e cebolas. Até o Dick acordou para comer. E comeram até a última migalha, usando pedaços de pão para limpar o fundo do balde. Quando terminaram, o sol encontrava-se baixo a oeste, e as sombras estendiam-se, negras e bem definidas, por todo o castelo.
– Acenda a fogueira – disse Jon ao Cetim – e encha a panela de azeite.
Desceu ele próprio as escadas para trancar a porta e tentar afastar um pouco da rigidez de sua perna. Foi um erro, e Jon compreendeu isso rapidamente, mas agarrou-se à muleta e avançou mesmo assim. A porta da Torre do Rei era de carvalho reforçado com ferro. Poderia atrasar os Thenns, mas não os impediria se quisessem entrar. Jon enfiou a tranca nos seus encaixes, fez uma visita à latrina – podia bem ser a sua última oportunidade – e voltou mancando ao topo, fazendo caretas de dor.