– Deviam ser todos passados na espada – declarou de repente Joffrey. – Os Mallister, os Blackwood e os Bracken... todos. São traidores. Quero-os mortos, avô. Não quero nenhum
– Senhor – disse Sor Kevan numa voz chocada –, a senhora é agora sua tia pelo casamento.
– Uma brincadeira. – Cersei sorriu. – Joff não falava a sério.
– Falava, sim – insistiu Joffrey. – Ele era um traidor, e quero a sua estúpida cabeça. Vou obrigar Sansa a beijá-la.
–
Joffrey deu um sorriso zombeteiro.
– O monstro é você, tio.
– Ah, sou? – Tyrion inclinou a cabeça. – Então talvez devesse falar comigo mais de mansinho. Os monstros são animais perigosos, e agora os reis parecem andar morrendo como moscas.
– Podia cortar sua língua por dizer isso – disse o jovem rei, corando. – Sou o rei.
Cersei apoiou uma mão protetora no ombro do filho.
– Deixe o anão fazer todas as ameaças que quiser, Joff. Quero que o senhor meu pai e o meu tio vejam aquilo que ele é.
Lorde Tywin ignorou aquilo; foi a Joffrey que se dirigiu.
– Aerys também achava que tinha de lembrar aos homens que era o rei. E também era muito amigo de arrancar línguas. Pode interrogar Sor Ilyn Payne a esse respeito, embora não vá obter resposta.
– Sor Ilyn nunca se atreveu a provocar Aerys como o seu Duende provoca Joff – disse Cersei. – Ouviu Tyrion. “Monstro”, disse ele. À Graça Real. E ameaçou-o...
– Fique calada, Cersei. Joffrey, quando os seus inimigos o desafiarem, tem de lhes servir aço e fogo. Mas quando se ajoelham, tem de ajudá-los a se levantar. De outro modo, nunca ninguém dobrará o joelho. E qualquer homem que tenha de dizer “sou o rei” não é rei de verdade. Aerys nunca compreendeu isso, mas você compreenderá. Depois de ganhar a sua guerra, restauraremos a paz régia e a justiça real. Em vez de cabeças, preocupe-se é com o cabaço de Margaery Tyrell.
Joffrey ostentava aquela sua expressão carrancuda e amuada. Cersei tinha-o firmemente preso pelo ombro, mas talvez devesse tê-lo agarrado pela garganta. O rapaz surpreendeu a todos. Em vez de fugir e de ir se enfiar debaixo de uma pedra, Joff ergueu-se com um ar desafiador e disse:
– Fala de Aerys, avô, mas tinha medo dele.
Lorde Tywin estudou o neto em silêncio, com salpicos de ouro brilhando em seus olhos verde-claros.
– Joffrey, peça perdão ao seu avô – disse Cersei.
Ele libertou-se das mãos dela.
– Por que devo pedir perdão? Todo mundo sabe que é verdade. O meu pai ganhou todas as batalhas. Matou o Príncipe Rhaegar e capturou a coroa, enquanto o seu pai estava escondido por baixo de Rochedo Casterly. – O rapaz dirigiu ao avô um olhar de desafio. – Um rei
– Obrigado por essas palavras de sabedoria, Vossa Graça – disse Lorde Tywin, com uma cortesia tão fria que era capaz de fazer cair suas orelhas, congeladas. – Sor Kevan, vejo que o rei está cansado. Por favor, acompanhe-o em segurança de volta ao seu quarto. Pycelle, talvez uma poção suave para ajudar Sua Graça a ter um sono descansado?
– Vinho dos sonhos, senhor?
– Não quero vinho dos sonhos nenhum – insistiu Joffrey.
Lorde Tywin teria dado mais ouvidos a um rato guinchando no canto.
– Vinho dos sonhos servirá. Cersei, Tyrion, fiquem.
Sor Kevan pegou firmemente no braço de Joffrey e levou-o porta afora, atrás da qual dois homens da Guarda Real esperavam. O Grande Meistre Pycelle apressou-se a segui-los o mais depressa que as suas velhas pernas trêmulas conseguiam levá-lo. Tyrion ficou onde estava.
– Pai, lamento – disse Cersei quando a porta foi fechada. – Joff sempre foi teimoso, eu preveni...
– Há léguas e léguas de diferença entre teimoso e burro. “Um rei forte age com ousadia?” Quem lhe disse isso?
– Eu não, garanto – disse Cersei. – O mais provável é que tenha sido algo que ouviu Robert dizer...
– A parte sobre você se esconder por baixo do Rochedo Casterly realmente soa a Robert. – Tyrion não queria que Lorde Tywin se esquecesse dessa parte da conversa.