Mas um súbito grito fez Arya virar a cabeça antes de ter tempo de saltar. Os barqueiros corriam em frente, de varas na mão. Por um momento não compreendeu o que estava acontecendo. Então viu: uma árvore desenraizada, enorme e escura, que vinha direto na direção do barco. Um emaranhado de raízes e ramos projetava-se da água como os braços estendidos de uma grande lula gigante. Os homens remavam freneticamente para trás, tentando evitar uma colisão que poderia virar o barco ou abrir um rombo em seu casco. O velho tinha virado o leme por completo, e o cavalo da proa estava se voltando para jusante, mas muito devagar. Cintilando em castanho e negro, a árvore corria para eles como um aríete.
Não podia estar a mais de três metros da proa quando dois dos barqueiros conseguiram encostar suas longas varas nela. Uma partiu-se, e o longo
Quando por fim atracaram, foi a uma considerável distância do embarcadouro habitual. O barco bateu com tanta força na margem que outra vara se partiu, e Arya quase se desequilibrou mais uma vez. Sandor Clegane colocou-a no dorso de Estranho como se não fosse mais pesada do que uma boneca. Os barqueiros fitaram-nos com olhos baços e exaustos, todos menos o corcunda, que estendeu a mão.
– Seis dragões – exigiu. – Três pela passagem, e três pelo homem que perdi.
Sandor Clegane esquadrinhou a bolsa e jogou na palma da mão do homem um maço amarrotado de pergaminho.
– Tome. Fique com dez.
– Dez? – o barqueiro estava confuso. – O que é isso agora?
– Uma nota de um morto, que vale nove mil dragões, ou por aí. – Cão de Caça saltou para a sela atrás de Arya e deu um sorriso desagradável ao homem. – Dez são seus. Um dia voltarei para vir buscar o resto, por isso vê lá se não gasta tudo.
O homem semicerrou os olhos para o pergaminho.
– Escrita. De que vale a escrita? Prometeu ouro. Honra de cavaleiro, você disse.
– Os cavaleiros não têm honra nenhuma. Já é hora de aprender isso, velho. – Cão de Caça esporeou o cavalo e afastou-se a galope através da chuva. Os barqueiros lançaram pragas às suas costas, e um ou dois arremessaram pedras. Clegane ignorou tanto as pedras como as palavras, e pouco tempo depois estavam perdidos na sombra das árvores, com o rio reduzido a um rugido minguante atrás deles. – O barco não voltará a atravessar até amanhã – disse – e aqueles ali não aceitarão promessas de papel dos próximos idiotas que aparecerem. Se os seus amigos vierem atrás de nós, vão ter de ser nadadores fortes como o diabo.
Arya encolheu-se e ficou calada.
Quando a chuva parou e as nuvens se abriram, estava tremendo e espirrando tanto que Clegane decidiu parar para a noite e até tentou acender uma fogueira. Mas a madeira que reuniram revelou-se encharcada demais. Nada que Cão de Caça fizesse era suficiente para que a centelha pegasse. Por fim, desfez o monte de lenha aos pontapés, irritado.
– Sete malditos infernos – praguejou. – Detesto fogueiras.
Sentaram-se em pedras molhadas por baixo de um carvalho, escutando o lento bater de água que pingava das folhas enquanto comiam um jantar frio de pão duro, queijo bolorento e salsicha defumada. Cão de Caça cortava a carne com o punhal e semicerrou os olhos quando flagrou Arya olhando para a faca.
– Nem pense nisso.
– Não estava pensando – mentiu ela.
Ele fungou, para mostrar o que pensava daquilo, mas deu-lhe uma grossa fatia de salsicha. Arya pôs-se a roê-la, observando-o enquanto comia.