Em outros tempos, Jaime poderia ter replicado com um sorriso e uma ameaça, mas aleijados manetas não inspiram muito medo. Perguntou a si mesmo o que o irmão faria.
– Os Lannister mentem, Pernas-de-Aço. Lorde Bolton não lhe disse isso?
O homem franziu a testa, desconfiado.
– E se tivesse dito?
– Se não me levar de volta a Harrenhal, a canção que vou cantar ao meu pai poderá não ser aquela que o Senhor do Forte do Pavor gostaria de ouvir. Posso até dizer que foi Bolton quem ordenou que minha mão fosse cortada, e Walton Pernas-de-Aço quem manejou a lâmina.
Walton olhou-o boquiaberto.
– Isso não é verdade.
– Não mesmo, mas meu pai acreditará em quem? – Jaime obrigou-se a sorrir, da maneira como costumava fazer quando nada no mundo podia assustá-lo. – Seria tão mais fácil se simplesmente voltássemos. Estaríamos bem depressa de novo a caminho, e eu cantaria uma canção tão simpática em Porto Real que nem acreditaria em seus ouvidos. Ficaria com a garota, e uma bela e gorda bolsa de ouro como agradecimento.
– Ouro? – Walton gostou bastante da ideia. – Quanto ouro?
– Ora, quanto você quer?
E quando o valor foi acordado, já estavam a meio caminho de Harrenhal.
Jaime incitou o cavalo muito mais do que no dia anterior, e Pernas-de-Aço e os nortenhos foram obrigados a acompanhar o ritmo dele. Mesmo assim, passou-se o meio-dia antes de chegarem ao castelo que se debruçava sobre o lago. Sob um céu que escurecia e ameaçava desabar, as imensas muralhas e as cinco grandes torres mostravam-se negras e sinistras.
– Vocês aí! Abram os portões, senão ponho-os abaixo aos chutes!
Foi só quando Qyburn e Pernas-de-Aço somaram as vozes à de Jaime que uma cabeça finalmente surgiu nas ameias lá em cima. O homem arregalou os olhos para eles, e depois desapareceu. Pouco tempo depois, ouviram a porta levadiça sendo içada. Os portões abriram-se, e Jaime Lannister esporeou o cavalo para atravessar a muralha, quase sem dar um relance aos alçapões enquanto passava por baixo. Tinha se preocupado com a possibilidade de o bode não deixá-los entrar, mas parecia que os Bravos Companheiros ainda pensavam neles como aliados.
O pátio exterior encontrava-se deserto; só os compridos estábulos com telhado de ardósia mostravam sinais de vida, e o que interessava a Jaime naquele momento não eram cavalos. Puxou as rédeas e olhou em volta. Ouvia ruídos vindos de algum lugar atrás da Torre dos Fantasmas e homens gritando em meia dúzia de línguas. Pernas-de-Aço e Qyburn aproximaram-se e pararam junto a Jaime, um de cada lado.
– Vá buscar o que veio buscar, e vamos de novo embora – disse Walton. – Não quero encrenca com os Saltimbancos.
– Diga aos seus homens para manterem as mãos no cabo das espadas, e os Saltimbancos não quererão encrenca com você. Dois para um, lembra?
A cabeça de Jaime virou-se vivamente ao ouvir um rugido distante, tênue mas feroz. Ecoou nas muralhas de Harrenhal, e as gargalhadas subiram como o mar. De repente, compreendeu o que estava acontecendo.
Tinham-na na arena dos ursos.
Rei Harren, o Negro, quis fazer até as lutas de ursos em estilo suntuoso. A arena tinha dez metros de diâmetro e cinco de profundidade, era fechada por muros de pedra, possuía um chão de areia e era rodeada por seis fileiras de bancos de mármore. Ao desmontar desajeitadamente do cavalo, Jaime viu que os Bravos Companheiros enchiam apenas um quarto dos lugares. Os mercenários estavam tão absortos pelo espetáculo, lá embaixo, que só aqueles que se encontravam do outro lado da arena notaram a sua chegada.
Brienne trajava o mesmo vestido que usara para jantar com Roose Bolton e que tão mal lhe caía. Nada de escudo, nada de placa de peito, nada de cota de malha, nem mesmo couro fervido, só cetim cor-de-rosa e renda de Myr. O bode talvez pensasse que era mais divertida quando estava vestida de mulher. Metade do vestido pendia em farrapos, e o braço esquerdo sangrava onde o urso a arranhara.