A estrada levou-os a atravessar uma aldeia queimada. Devia ter passado um ano ou mais desde que o lugar fora incendiado. Os casebres estavam enegrecidos e sem telhados, mas as ervas daninhas que cresciam nos campos em volta batiam na cintura. Pernas-de-Aço ordenou uma parada para permitir que dessem água aos cavalos.
– É uma honra ter um cavaleiro da Guarda Real debaixo de meu teto, sor – o homem disse. – É uma história que vou contar aos meus netos.
Jaime olhou para a chaminé que se projetava por entre as ervas daninhas e perguntou a si mesmo se o homem teria arranjado esses netos.
Sentiu os dedos fantasma cerrarem-se. Quando Pernas-de-Aço disse que talvez devessem acender uma fogueira e comer um pouco, Jaime sacudiu a cabeça.
– Não gosto deste lugar. Prosseguimos.
Ao cair da noite, deixaram o lago para seguir uma trilha sulcada através de um bosque de carvalhos e olmos. O coto de Jaime latejava surdamente quando Pernas-de-Aço decidiu acampar. Felizmente, Qyburn tinha trazido um odre de vinho de sonhos. Enquanto Walton distribuía os turnos de vigia, Jaime esticou-se junto à fogueira e encostou uma pele de urso enrolada a um toco de árvore para servir de almofada. A garota teria dito que ele devia comer antes de dormir, para manter as forças, mas ele sentia mais cansaço do que fome. Fechou os olhos e esperou sonhar com Cersei. Os sonhos febris eram todos tão vívidos...
Achou-se nu e sozinho, rodeado de inimigos, com uma muralha de pedra por toda a volta, muito próxima.
Levantou a mão direita e dobrou os dedos para sentir a sua força. Era tão bom quanto sexo. Tão bom quanto lutar de espada na mão.
À sua volta, encontrava-se uma dúzia de vultos altos e escuros, vestidos com togas encapuzadas que escondiam seus rostos. Nas mãos, traziam lanças.
– Quem são vocês? – perguntou-lhes em tom de desafio. – O que querem de Rochedo Casterly?
As sombras não deram resposta, limitaram-se a cutucá-lo com a ponta das lanças. Não teve alternativa a não ser descer. Seguiram por uma passagem que se encurvava, com degraus estreitos esculpidos na rocha viva, para baixo e mais para baixo.
Os degraus terminaram abruptamente numa escuridão cheia de ecos. Jaime teve a sensação de um vasto espaço à sua frente. Parou de súbito, balançando na borda do nada. Uma ponta de lança espetou-se na parte de baixo de suas costas, atirando-o para o abismo. Gritou, mas a queda foi curta. Caiu sobre as mãos e os joelhos, em areia mole e água rasa. Havia cavernas cheias de água bem abaixo de Rochedo Casterly, mas aquela era-lhe estranha.
– O seu lugar. – A voz ecoou; era uma centena de vozes, um milhar, as vozes de todos os Lannister desde Lann, o Esperto, que vivera na aurora dos dias. Mas, acima de tudo, era a voz de seu pai, e ao lado de Lorde Tywin encontrava-se a irmã, pálida e bela, com uma tocha ardendo na mão. Joffrey, o filho que tinham feito juntos, também estava lá, e atrás deles havia mais uma dúzia de silhuetas escuras com cabelos dourados.
– Irmã, por que o pai nos trouxe para cá?
– “Nos”? Este lugar é seu, irmão. Esta escuridão é sua. – A tocha dela era a única luz na caverna. A tocha dela era a única luz no mundo. Virou-se para ir embora.
– Fique comigo – suplicou Jaime. – Não me deixem aqui sozinho. – Mas eles estavam partindo. –