Lorde Bolton paramentara-o como um cavaleiro, preferindo ignorar a mão em falta que transformava em caricatura esse vestuário guerreiro. Jaime seguia com espada e punhal ao cinto, escudo e elmo pendurados na sela, cota de malha sob um sobretudo marrom-escuro. Mas não era tão idiota para exibir o leão dos Lannister em suas armas, nem o brasão branco puro que era seu de direito como Irmão Juramentado da Guarda Real. No arsenal, tinha encontrado um velho escudo, amassado e fendido, cuja tinta lascada ainda exibia a maior parte do grande morcego negro da Casa Lothston num fundo de prata e ouro. Os Lothston tinham sido os donos de Harrenhal antes dos Whent e foram uma família poderosa em seus dias, mas estavam mortos havia séculos, por isso era improvável que alguém levantasse objeções a ele usar as suas armas. Não seria primo de ninguém, inimigo de ninguém, espada juramentada a ninguém... em suma, não seria ninguém.
Saíram através do portão oriental de Harrenhal, menor, e despediram-se de Roose Bolton e de sua tropa dez quilômetros adiante, virando para sul a fim de seguir a estrada do lago durante algum tempo. Walton pretendia evitar a estrada do rei enquanto pudesse, preferindo os caminhos de agricultores e as trilhas de caça perto do Olho de Deus.
– A estrada do rei seria mais rápida. – Jaime estava ansioso por voltar tão depressa quanto possível para Cersei. Caso se apressassem, até poderia chegar a tempo do casamento de Joffrey.
– Não quero encrenca – disse Pernas-de-Aço. – Só os deuses sabem quem iríamos encontrar nessa estrada do rei.
– Ninguém que pudesse temer, certamente. Tem duzentos homens.
– Tenho mesmo. Mas outros podem ter mais. O senhor disse para levá-lo a salvo ao senhor seu pai, e é isso que eu vou fazer.
Rei Aerys tinha feito um grande espetáculo da investidura de Jaime. Proferiu os votos perante o pavilhão real, ajoelhado na grama verde com a sua armadura branca, enquanto metade do reino o observava. Quando Sor Gerald Hightower o ajudou a se levantar e colocou o manto branco em volta de seus ombros, ressoou uma aclamação tamanha que Jaime ainda a recordava, depois de todos esses anos. Mas, nessa mesma noite, Aerys amargou, declarando que não precisava de
– Ele não conquistará aqui nenhuma glória – tinha dito o rei. – Agora é meu, não de Tywin. Servirá como eu bem entender. O rei sou eu. Eu governo, e ele obedecerá.
Foi então que Jaime compreendeu, pela primeira vez, que não fora sua perícia com a espada e a lança que conquistara para ele o manto branco, nem quaisquer feitos de valor que teria realizado contra a Irmandade da Mata de Rei. Aerys o tinha escolhido para humilhar o seu pai, para roubar o herdeiro de Lorde Tywin.
Mesmo agora, tantos anos depois, a ideia era amarga. E naquele dia, enquanto cavalgava para o sul com seu novo manto branco sobre os ombros, a fim de defender um castelo vazio, havia sido quase intolerável. Se pudesse, teria arrancado o manto naquele momento, mas era tarde demais. Proferira as palavras sob os olhares de metade do reino, e um homem da Guarda Real servia para a vida inteira.
Qyburn se aproximou.
– A mão está incomodando?
– A falta da mão está incomodando. – As manhãs eram a pior hora. Em seus sonhos, Jaime era um homem completo, e todas as madrugadas ficava deitado, meio acordado, e sentia os dedos mexendo.
– Ouvi dizer que teve uma visita ontem à noite – disse Qyburn. – Espero que tenha desfrutado dela.
Jaime deu-lhe um olhar frio.
– Ela não disse quem a tinha enviado.
O meistre sorriu com modéstia.
– Sua febre tinha praticamente passado, e pensei que talvez gostasse de um pouco de exercício. Pia é bastante habilidosa, não achou? E tão... solícita.
Ela certamente tinha sido. Deslizou tão depressa porta adentro e das roupas para fora que Jaime achou que ainda estava sonhando.
Só despertou depois que a mulher se enfiou debaixo das mantas e colocou a mão boa dele sobre um seio.