– Morreram ou foram embora. – A Dádiva de Brandon tinha sido cultivada durante milhares de anos, mas, conforme a Patrulha ia minguando, o número de mãos para arar os campos, cuidar das abelhas e plantar os pomares diminui, e assim a natureza reclamou o controle de muitos campos de cultivo e salões. Na Nova Dádiva houve aldeias e castros, cujos impostos, entregues em bens e trabalho, ajudavam a alimentar e vestir os irmãos negros. Mas essas também tinham desaparecido em grande parte.
– Foram tolos por deixar um castelo como este – disse Ygritte.
– É só uma casa-torre. Um pequeno fidalgo qualquer viveu aí um dia, com a família e alguns homens juramentados a ele. Quando chegavam assaltantes, acendia um farol no telhado. Winterfell tem torres três vezes maiores do que estas.
Ela olhou-o como se julgasse que Jon estava inventando aquilo.
– Como é possível que os homens construam tão alto, sem gigantes para levantar as pedras?
Segundo as lendas, Brandon, o Construtor,
– Os homens conseguem construir a alturas muito maiores do que esta. Em Vilavelha há uma torre mais alta do que a Muralha. – Percebeu que ela não acreditou no que ele dizia.
O sonho era agradável... mas Winterfell nunca seria seu para mostrar. Pertencia ao seu irmão, o Rei no Norte. Ele era um Snow, não um Stark.
– Talvez, depois a gente possa voltar para cá e viver naquela torre – disse ela. – Você gostaria, Jon Snow? Depois?
Um dia, o senhor seu pai havia falado em fazer novos senhores e instalá-los nos castros abandonados como escudo contra os selvagens. O plano exigiria que a Patrulha cedesse uma grande parte da Dádiva, mas o tio Benjen acreditava que o Senhor Comandante podia ser persuadido a fazer isso, desde que os novos fidalgos pagassem impostos a Castelo Negro, e não a Winterfell.
– Mas é um sonho para a primavera – tinha dito Lorde Eddard. – Com o inverno chegando, nem mesmo a promessa de terras atrairia homens ao norte.
– Esta terra pertence à Patrulha – disse Jon.
As narinas dela dilataram-se.
– Ninguém vive aqui.
– Os seus corsários afugentaram-nos.
– Então eram covardes. Se queriam a terra, deviam ter ficado e lutado.
– Talvez estivessem cansados de lutar. Cansados de barrar as portas todas as noites, imaginando se Camisa de Chocalho ou alguém como ele as arrombaria para raptar suas mulheres. Fartos de verem as colheitas roubadas, juntamente com qualquer coisa de valor que possuíssem. É mais fácil ir viver fora do alcance de assaltantes. –
– Você não sabe nada, Jon Snow. São as filhas que são levadas, não as mulheres. São
– Ah, é? – às vezes, Jon se esquecia de quão selvagem ela era, e então Ygritte o lembrava disso. – Como foi que isso aconteceu?
– Os deuses fizeram a terra pra todos os homens partilharem. Mas aí os reis chegaram com suas coroas e espadas de aço e disseram que a terra era toda deles. “As árvores são minhas”, disseram, “não podem comer as maçãs”. “O riacho é meu, não podem pescar aqui. A floresta é minha, não podem caçar. A minha terra, a minha água, o meu castelo, a minha filha, mantenham as mãos longe, senão eu as corto, mas se vocês se ajoelharem, deixo vocês cheirarem.” Chamam-nos de ladrões, mas ao menos um ladrão tem que ser corajoso, esperto e rápido. O tipo que ajoelha só tem que ajoelhar.