Fora da cela, Lampreia surgiu com um molho de chaves na mão. Sor Axell Florent e quatro guardas seguiam-no de perto. Esperaram sob o archote enquanto Lampreia procurava a chave certa.
– Axell – disse Lorde Alester. – Pela bondade dos deuses. É o rei que manda me buscar, ou a rainha?
– Ninguém mandou buscá-lo, traidor – disse Sor Axell.
Lorde Alester recuou como se tivesse levado um tapa.
– Não, juro, não cometi nenhuma traição. Por que não me escuta? Se ao menos Sua Graça me deixasse explicar...
Lampreia enfiou uma grande chave de ferro na fechadura, virou-a e abriu a cela. As ferraduras enferrujadas guincharam num protesto.
– Você – disse ele a Davos. – Venha.
– Para onde? – Davos olhou para Sor Axell. – Diga-me a verdade, sor, pretendem me queimar?
– Mandaram chamá-lo. Consegue andar?
– Consigo. – Davos saiu da cela. Lorde Alester soltou um grito de consternação quando Lampreia voltou a fechar a porta com estrondo.
– Traga o archote – ordenou Sor Axell ao carcereiro. – Deixe o traidor nas trevas.
– Não – disse o irmão. – Axell, por favor, não leve a luz... que os deuses tenham piedade...
– Deuses? Só existem R’hllor e o Outro. – Sor Axell gesticulou categoricamente, e um de seus guardas puxou o archote da arandela e começou a subir a escada à frente dos demais.
– Está me levando até Melisandre? – perguntou Davos.
– Ela estará lá – disse Sor Axell. – Nunca está longe do rei. Mas é Sua Graça em pessoa quem manda buscá-lo.
Davos levou a mão ao peito, ao local onde a sua sorte estivera pendurada por uma correia, dentro de uma bolsa de couro.
E subiram, ascendendo em fila indiana pela escada em caracol. As paredes eram de pedra escura áspera, fria ao toque. A luz das tochas seguia à frente e, nas paredes, as sombras dos homens marchavam ao lado deles. Na terceira volta, passaram por um portão de ferro que se abria para a escuridão, e por um outro na quinta volta. Davos calculou que, a essa altura, deviam estar perto da superfície, talvez já acima dela. A terceira porta a que chegaram era feita de madeira, mas continuaram a subir. Agora as paredes eram interrompidas por estreitas fendas para arqueiros, mas nenhuma brecha de luz do sol abria caminho através da espessura da pedra. Lá fora era noite.
Suas pernas doíam quando Sor Axell escancarou uma porta pesada e, com gestos, lhe indicou que passasse. Para lá da porta, uma ponte elevada de pedra fazia um arco sobre o vazio e levava à maciça torre central que tinha o nome de Tambor de Pedra. Um vento marítimo soprava incessantemente pelas arcadas que suportavam o telhado, e quando cruzou a ponte, Davos conseguiu sentir o cheiro da água salgada. Respirou fundo, enchendo os pulmões com o ar puro e frio.
Estavam no centro da ponte quando Sor Axell parou subitamente. Fez um gesto brusco com a mão, e seus homens afastaram-se para onde não pudessem ouvi-los.
– Se a escolha fosse minha, queimaria você com o meu irmão Alester – disse a Davos. – São ambos traidores.
– Diga o que quiser. Eu nunca trairia o Rei Stannis.
– Trairia. Trairá. Vejo em seu rosto. E também vi nas chamas. R’hllor abençoou-me com esse dom. Tal como à Senhora Melisandre, mostra-me o futuro no fogo. Stannis Baratheon
– A rainha pediu a minha nomeação – prosseguiu Sor Axell. – Até seu velho amigo de Lys, o pirata Saan, até ele diz o mesmo. Construímos juntos um plano, ele e eu. Mas Sua Graça não age. A derrota o corrói por dentro, um verme negro em sua alma. Cabe a nós, os que o amamos, mostrar-lhe o que fazer. Se é tão devotado à sua causa como diz, contrabandista, irá juntar sua voz à nossa. Diga-lhe que eu sou a única Mão de que ele necessita. Diga-lhe e, quando zarparmos, vou me assegurar de que você tenha um novo navio.