Durante meio segundo, Arya esqueceu-se de quem se esperava que ela fosse. Não era pêssego nenhum, mas também não podia ser Arya Stark, ali, para um bêbado fedido que não conhecia.
– Eu sou...
– Ela é a minha irmã. – Gendry apoiou uma mão pesada no ombro do velho e apertou. – Deixe-a em paz.
O homem virou-se, desejoso de uma luta, mas, quando viu o tamanho de Gendry, pensou duas vezes.
– Sua irmã, é? Que raio de irmão é você? Nunca traria uma irmã minha ao Pêssego, isso é certo. – Levantou-se do banco e afastou-se resmungando, à procura de uma nova amiga.
– Por que foi que disse aquilo? – Arya levantou-se em um salto. – Você não é meu irmão.
– É verdade – disse ele num tom irritado. – Meu nascimento é baixo demais para ser da família de sua alteza.
Arya surpreendeu-se pela fúria na voz dele.
– Não foi isso que eu quis dizer.
– Foi, sim senhora. – Gendry sentou-se no banco, aninhando uma taça de vinho nas mãos. – Vá embora. Quero beber este vinho em paz. Depois, de repente vou atrás daquela garota de cabelos pretos para tocar o sino dela.
– Mas...
– Eu disse:
Arya virou-se e deixou-o ali.
O quarto deles ficava no topo da escada, abaixo do beiral. No Pêssego, talvez não faltassem camas, mas só havia uma para gente como eles. Era uma cama
– Rainha Cersei – sussurrou para a almofada. – Rei Joffrey, Sor Ilyn, Sor Meryn. Dunsen, Raff e Polliver. Cócegas, Cão de Caça e Sor Gregor, a Montanha. – Às vezes gostava de embaralhar a ordem dos nomes. Isso ajudava-a a recordar quem eram e o que tinham feito.
O sono chegou assim que fechou os olhos. Nessa noite, sonhou com lobos, caçando em uma floresta úmida com um pesado cheiro de chuva, putrefação e sangue no ar. Mas, no sonho, eram cheiros bons, e Arya sabia que nada tinha a temer. Era forte, ligeira e feroz, e a sua matilha rodeava-a, seus irmãos e suas irmãs. Perseguiram juntos um cavalo assustado, rasgaram sua garganta e banquetearam-se. E quando a lua surgiu entre as nuvens, jogou a cabeça para trás e
Mas, quando o dia chegou, acordou com o ladrar de cães.
Arya sentou-se, bocejando. Gendry agitava-se à sua esquerda e Limo Manto Limão roncava sonoramente à direita, mas os latidos lá fora quase não deixavam que o ouvisse.
Arya ouviu um dos cavaleiros rir.
– Aqui está seu novo castelo, maldito bastardo Lannister – disse. – Um tanto compacto para um cara como você, mas não se preocupe, a gente enfia você lá dentro. – Ao seu lado estava sentado um prisioneiro, carrancudo, com várias voltas de corda de cânhamo apertadas ao redor dos pulsos. Alguns dos homens da cidade estavam atirando esterco nele, mas o prisioneiro nem vacilava. – Vai
O barulho tinha acordado metade do Pêssego. Gendry enfiou-se ao lado de Arya na janela, e Tom aproximou-se por trás deles, nu como no dia em que nasceu.
– Que diabo de gritaria é essa? – Limo protestou da cama. – Um homem tá tentando dormir um pouco, diabos!
– Onde está o Barba-Verde? – perguntou Tom.
– Na cama com a Tanásia – disse o Limo. – Por quê?