Quando saiu do Tambor de Pedra, fazia frio no pátio. Um vento fresco soprava do leste, fazendo os estandartes baterem ruidosamente ao longo das muralhas. Davos sentia o cheiro do sal no ar.
Ergueu os olhos e fitou as muralhas. Em vez de merlões, um milhar de ornamentos grotescos e de gárgulas olhavam-no lá de cima, cada uma diferente de todas as outras; serpes, grifos, demônios, mantícoras, minotauros, basiliscos, mastins do inferno, cocatrizes, e um milhar de criaturas mais estranhas que brotavam das ameias do castelo como se tivessem nascido ali. E havia dragões por todos os lados. O Grande Salão era um dragão deitado sobre a barriga. Entrava-se por sua boca aberta. As cozinhas eram um dragão enrolado numa bola, com a fumaça e o vapor dos fornos saindo através de suas narinas. As torres eram dragões empoleirados nas muralhas, ou prontos para levantar voo; o Dragão de Vento parecia gritar em desafio, ao passo que a Torre do Dragão Marinho olhava serenamente por sobre as águas. Dragões menores enquadravam os portões. Garras de dragão emergiam das paredes para agarrar archotes, grandes asas de pedra abraçavam o ferreiro e o arsenal, e caudas formavam arcos, pontes e escadas exteriores.
Davos ouvia dizer com frequência que os feiticeiros de Valíria não cortavam e burilavam como os pedreiros vulgares, mas trabalhavam a pedra com fogo e magia como um oleiro trabalharia o barro. Mas agora duvidava.
– Se a mulher vermelha os trouxer à vida, o castelo ruirá, imagino. Que espécie de dragão está cheia de quartos, escadas e mobília? E de janelas. E de chaminés. E de fossas.
Davos virou-se para deparar com Salladhor Saan ao seu lado.
– Isso significa que perdoou a minha traição, Salla?
O velho pirata brandiu um dedo em sua direção.
– Perdoei, sim. Esqueci, não. Todo aquele bom ouro na Ilha da Garra que podia ter sido meu, fico velho e cansado só de pensar nele. Quando morrer empobrecido, minhas esposas e concubinas vão amaldiçoá-lo, Senhor das Cebolas. Lorde Celtigar tinha muitos belos vinhos que não estou saboreando, uma águia do mar que treinara para levantar voo de seu pulso e um berrante mágico para fazer sair lulas gigantes das profundezas. Muito útil seria esse berrante, para puxar para baixo os tyroshi e outras criaturas incômodas. Mas posso soprar esse berrante? Não, porque o rei fez de meu velho amigo sua Mão. – Deu o braço a Davos e disse: – Os homens da rainha não simpatizam com você, velho amigo. Estou ouvindo dizer que uma certa Mão tem andado fazendo seus próprios amigos. Isso é verdade, não?
– Um certo pirata liseno disse-me uma vez que um bom contrabandista fica longe da vista – respondeu cuidadosamente Davos. – Velas negras, remos abafados e uma tripulação que saiba controlar a língua.
O liseno riu.