Читаем A Tormenta de Espadas полностью

Não. Davos lembrava-se bem demais da sombra viva que saíra se contorcendo do ventre da mulher naquela noite sob Ponta Tempestade, das mãos negras empurrando as suas coxas. Aqui tenho de pisar com cuidado, senão uma sombra pode vir me procurar também.

– Até um contrabandista de cebolas sabe distinguir duas cebolas de três. Falta-lhe um rei, senhora.

Stannis resfolegou uma risada.

– Ele pegou-a, senhora. Dois não é igual a três.

– Com certeza, Vossa Graça. Um rei pode morrer por acaso, até dois... mas três? Se Joffrey morrer, no meio de todo o seu poder, rodeado por seus exércitos e sua Guarda Real, isso não mostraria o poder do Senhor em ação?

– Talvez mostre. – O rei falou como se se ressentisse de cada palavra.

– Ou talvez não. – Davos fez o melhor que pôde para esconder o medo.

– Joffrey morrerá – declarou a Rainha Selyse, serena em sua confiança.

– Até pode já estar morto – acrescentou Sor Axell.

Stannis olhou-os com um ar aborrecido.

– São corvos treinados, para crocitarem comigo um de cada vez? Basta.

– Esposo, escute-me... – rogou a rainha.

– Por quê? Dois é diferente de três. Os reis sabem contar tão bem quanto os contrabandistas. Podem ir. – Stannis virou as costas a eles.

Melisandre ajudou a rainha a se levantar. Selyse saiu do aposento, hirta, com a mulher vermelha atrás. Sor Axell deixou-se ficar tempo suficiente para lançar a Davos um último olhar. Um olhar feio num rosto feio, pensou o contrabandista ao encará-lo.

Depois de os outros saírem, Davos pigarreou. O rei ergueu os olhos.

– Ainda está aqui?

– Senhor, a propósito de Edric Storm...

Stannis fez um gesto brusco.

– Poupe-me.

Davos persistiu.

– A sua filha tem aulas com ele e brinca todos os dias em sua companhia no Jardim de Aegon.

– Eu sei disso.

– O coração dela iria se quebrar se algo de mal...

– Também sei disso.

– Se ao menos o visse...

– Já o vi. Parece-se com Robert. Sim, e venera o pai. Deverei falar-lhe da frequência com que o seu querido pai lhe dirigia um pensamento? Meu irmão gostava bastante do fabrico de crianças, mas depois do nascimento eram um aborrecimento.

– Ele pergunta pelo senhor todos os dias, ele...

– Está me irritando, Davos. Não quero ouvir falar mais desse bastardo.

– O nome dele é Edric Storm, senhor.

– Eu sei o nome dele. Terá alguma vez existido um nome mais adequado? Proclama a sua bastardia, o seu elevado nascimento, e o tumulto que traz consigo. Edric Storm. Aí está, eu disse. Está satisfeito, senhor Mão?

– Edric... – começou.

– ... é um garoto! Poderia ser o melhor garoto que alguma vez respirou, que não teria importância. Meu dever é para com o reino. – A mão varreu a Mesa Pintada. – Quantos garotos vivem em Westeros? Quantas garotas? Quantos homens, quantas mulheres? A escuridão vai devorá-los todos, diz ela. A noite que não tem fim. Fala de profecias... um herói renascido no mar, dragões vivos chocados a partir de pedra morta... fala de sinais e jura que apontam para mim. Nunca pedi isso, assim como não pedi ser rei. Mas vou me atrever a não lhe dar ouvidos? – rangeu os dentes. – Não escolhemos o nosso destino. Mas temos... temos de cumprir o nosso dever, não é? Grande ou pequeno, temos de cumprir o nosso dever. Melisandre jura que me viu em suas chamas, enfrentando a escuridão com a Luminífera erguida bem alto. Luminífera! – Stannis soltou uma fungadela derrisória. – Cintila lindamente, admito, mas na Água Negra essa espada mágica não me serviu melhor do que qualquer aço banal. Um dragão teria virado essa batalha. Aegon esteve um dia onde estou agora, olhando para esta mesa. Pensa que lhe chamaríamos hoje Aegon, o Conquistador, se não tivesse tido dragões?

– Vossa Graça – disse Davos –, o preço...

Eu conheço o preço! Na noite passada, olhando para aquela lareira, também vi coisas nas chamas. Vi um rei, com uma coroa de fogo na testa, ardendo... ardendo, Davos. Sua própria coroa consumiu sua carne e transformou-o em cinzas. Acha que preciso que Melisandre me diga o que isso significa? Ou você? – o rei mudou de posição e sua sombra caiu sobre Porto Real. – Se Joffrey morrer... o que é a vida de um garoto bastardo perante um reino?

– Tudo – disse Davos em voz baixa.

Stannis olhou-o, com as mandíbulas cerradas.

– Vá – disse o rei por fim – antes que consiga se levar de volta à masmorra.

Às vezes os ventos de tempestade sopram com tanta força que um homem não tem alternativa exceto guardar as velas.

– Sim, Vossa Graça. – Davos fez uma reverência, mas, aparentemente, Stannis já o tinha esquecido.

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