– Jon Snow – disse ele –, quando estiver mais forte, precisa me contar tudo o que viu e fez. Donal, ponha uma chaleira de vinho no fogo e os meus ferros também. Vou querê-los em brasa. Clydas, vou precisar daquela sua faca boa e afiada. – O meistre tinha mais de cem anos; era encolhido, frágil, calvo e bem cego. Mas se os seus olhos leitosos nada viam, a sua mente ainda era tão aguçada como sempre fora.
– Há selvagens a caminho – contou Jon, enquanto Clydas lhe abria os calções com uma faca, cortando o pesado pano negro, incrustado de sangue velho e empapado com o novo. – Vindos do sul. Nós escalamos a Muralha...
Meistre Aemon cheirou o curativo improvisado de Jon quando Clydas o cortou.
– Nós?
– Eu acompanhava-os. Qhorin Meia-Mão ordenou-me que me juntasse a eles. – Jon estremeceu quando o dedo do meistre explorou seu ferimento, cutucando e espetando. – O Magnar de Thenn...
– Jon... dói-me dizer isso, mas o Senhor Comandante Mormont foi assassinado na Fortaleza de Craster, pelas mãos de seus Irmãos Juramentados.
– Irm...
– Garth de Vilavelha, Ollo Mão-Cortada, Adaga... ladrões, covardes e assassinos, todos eles. Devíamos ter previsto que isso iria acontecer. A Patrulha não é o que já foi. Há homens honestos de menos para manter os patifes na linha. – Donal Noye virou as lâminas do meistre no fogo. – Uma dúzia de homens leais conseguiu voltar. Edd Doloroso, Gigante, seu amigo Auroque. Soubemos da história por eles.
– Isso quer dizer então que Marsh é o Senhor Comandante? – a Velha Romã era amigável, e um diligente Primeiro Intendente, mas era completamente inadequado para enfrentar uma tropa de selvagens.
– Por enquanto, até organizarmos uma eleição – disse Meistre Aemon. – Clydas, traga-me o frasco.
Uma punhalada de dor fez-lhe lembrar os próprios infortúnios. O meistre apertou sua mão.
– Clydas foi buscar leite de papoula.
Jon tentou se levantar.
– Não preciso...
– Precisa – disse Aemon com firmeza. – Isto vai doer.
Donal Noye atravessou a sala e obrigou Jon a se deitar novamente.
– Fique quieto, senão o amarro. – Mesmo com apenas um braço, o ferreiro controlava-o como se fosse uma criança.
Clydas voltou com um frasco verde e uma taça arredondada de pedra. Meistre Aemon encheu-a.
– Beba isto.
Jon tinha mordido o lábio. Sentiu o sabor do sangue misturado com o da sedimentosa poção branca. Quase vomitou.
Clydas trouxe uma bacia de água quente, e Meistre Aemon lavou o pus e o sangue do ferimento. Por mais gentil que fosse, até o toque mais leve fazia com que Jon quisesse gritar.
– Os homens do Magnar são disciplinados e têm armaduras de bronze – disse-lhes. Falar ajudava a manter a mente afastada da perna.
– O Magnar é um senhor em Skagos – disse Noye. – Havia skagositas em Atalaialeste quando cheguei à Muralha, lembro-me de ouvi-los falando dele.
– Jon está usando a palavra em seu sentido mais antigo, creio eu – disse Meistre Aemon –, não como nome de família, mas como título. Deriva do Idioma Antigo.
– Significa senhor – concordou Jon. – Styr é o Magnar de um lugar qualquer chamado Thenn, na extremidade norte das Presas de Gelo. Tem uma centena de seus homens e uma vintena de corsários que conhecem a Dádiva quase tão bem quanto nós. Mas Mance nunca chegou a encontrar o berrante, isso vale de alguma coisa. O Berrante do Inverno. Era isso que ele andava à procura nas escavações que fez nas nascentes do Guadeleite.
Meistre Aemon fez uma pausa, com o pano da lavagem na mão.
– O Berrante do Inverno é uma lenda antiga. O Rei-Para-lá-da-Muralha realmente acredita que tal coisa existe?