Читаем A Tormenta de Espadas полностью

Uma árvore de saltimbancos, pensou Arya ao vê-los pendurados, com a pele branca pintada de um vermelho lúgubre pelas chamas da septeria incendiada. Os corvos já se aproximavam, vindos de lugar nenhum. Ouviu-os crocitando e cacarejando uns para os outros, e sentiu curiosidade em saber o que estariam dizendo. Arya não temera tanto o Septão Utt como Rorge, Dentadas e alguns outros em Harrenhal, mesmo assim estava satisfeita por ele estar morto. Também deviam ter enforcado ou cortado a cabeça do Cão de Caça. Em vez disso, para seu grande descontentamento, os fora da lei trataram o braço queimado de Sandor Clegane, devolveram-lhe a espada, o cavalo e a armadura, e libertaram-no a alguns quilômetros de distância do monte oco. Tudo que tiraram dele foi o ouro.

Em pouco tempo, a septeria ruiu, num estrondo de fumaça e chamas, quando as paredes deixaram de sustentar seu pesado telhado de ardósia. Os oito irmãos pardos observavam com resignação. Eram os que restavam, explicou o mais velho, que usava um pequeno martelo de ferro pendurado em uma correia em volta do pescoço, para simbolizar sua devoção ao Ferreiro.

– Antes da guerra éramos quarenta e quatro, e este lugar era próspero. Tínhamos uma dúzia de vacas leiteiras e um touro, cem colmeias, um vinhedo e um pomar de maçãs. Mas quando os leões chegaram, levaram todo o nosso vinho, mel e leite, abateram as vacas e entregaram o vinhedo à tocha. Depois disso... perdi a conta dos nossos visitantes. Esse falso septão foi apenas o último. Houve um monstro... demos-lhe toda a nossa prata, mas ele tinha certeza de que tínhamos ouro escondido, por isso seus homens mataram-nos um por um para fazer o Irmão Mais Velho falar.

– Como foi que vocês oito sobreviveram? – perguntou Anguy, o Arqueiro.

– Estou envergonhado – disse o velho. – Fui eu. Quando chegou a minha vez de morrer, disse-lhes onde o ouro estava escondido.

– Irmão – disse Thoros de Myr –, a única vergonha foi não lhes dizer imediatamente.

Naquela noite, os fora da lei abrigaram-se na cervejaria junto do pequeno rio. Seus anfitriões tinham um esconderijo cheio de comida sob o chão dos estábulos, e partilharam um jantar simples; pão de aveia, cebolas e uma sopa de couves aguada que tinha um leve gosto de alho. Arya encontrou uma fatia de cenoura flutuando na sua tigela e considerou-se sortuda. Os irmãos nunca perguntaram os nomes aos fora da lei. Eles sabem, pensou Arya. Como podiam não saber? Lorde Beric usava o relâmpago na placa de peito, no escudo e no manto, e Thoros trazia suas vestes vermelhas, ou aquilo que delas restava. Um irmão, um jovem noviço, foi suficientemente ousado para dizer ao sacerdote vermelho para não rezar ao seu falso deus enquanto se encontrasse sob o seu teto.

– Que se dane com isso – disse Limo Manto Limão. – Ele também é o nosso deus, e vocês devem a nós suas miseráveis vidas. E o que tem ele de falso? Seu Ferreiro pode reparar uma espada quebrada, mas será que consegue reparar um homem quebrado?

– Basta, Limo – ordenou Lorde Beric. – Sob o teto deles, honraremos as regras deles.

– O sol não deixará de brilhar se pularmos uma prece ou duas – concordou brandamente Thoros. – Se alguém sabe disso, sou eu.

O próprio Lorde Beric não comeu. Arya nunca o vira comer, embora de tempos em tempos bebesse uma taça de vinho. Tampouco parecia dormir. O seu olho bom fechava-se com frequência, como que devido ao cansaço, mas quando se falava com ele, voltava a se abrir de imediato. O Senhor da Marcha continuava vestido com o seu maltrapilho manto negro e sua placa de peito amassada, com o relâmpago de esmalte lascado. Até dormia com aquela placa de peito. O baço aço negro escondia o terrível ferimento que Cão de Caça provocara nele, da mesma forma que seu espesso cachecol de lã ocultava o anel escuro que tinha em volta da garganta. Mas nada escondia a cabeça rachada, com um grande buraco na têmpora, ou o poço vermelho em carne viva que era o olho que lhe faltava, ou a forma do crânio sob o seu rosto.

Arya olhou-o com prudência, recordando todas as histórias que se contavam dele em Harrenhal. Lorde Beric pareceu sentir seu medo. Virou a cabeça e fez-lhe sinal para se aproximar.

– Eu a assusto, pequena?

– Não. – Arya mordeu o lábio. – É só que... bem... pensei que o Cão de Caça tinha matado você, mas...

– Um ferimento – disse Limo Manto Limão. – Um ferimento grave, sim, mas Thoros curou-o. Nunca existiu curandeiro melhor.

Lorde Beric fitou Limo com uma expressão estranha no olho bom e nenhuma expressão no outro, só cicatrizes e sangue seco.

– Não há melhor curandeiro – concordou num tom fatigado. – Limo, já passa da hora de trocar a guarda, creio eu. Trate disso, por favor.

– Sim, senhor. – O comprido manto amarelo de Limo rodopiou atrás dele ao penetrar na noite ventosa.

– Até os homens corajosos se cegam, às vezes, quando têm medo de ver – disse Lorde Beric depois de Limo partir. – Thoros, quantas vezes já me trouxe de volta?

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