Em pouco tempo, a septeria ruiu, num estrondo de fumaça e chamas, quando as paredes deixaram de sustentar seu pesado telhado de ardósia. Os oito irmãos pardos observavam com resignação. Eram os que restavam, explicou o mais velho, que usava um pequeno martelo de ferro pendurado em uma correia em volta do pescoço, para simbolizar sua devoção ao Ferreiro.
– Antes da guerra éramos quarenta e quatro, e este lugar era próspero. Tínhamos uma dúzia de vacas leiteiras e um touro, cem colmeias, um vinhedo e um pomar de maçãs. Mas quando os leões chegaram, levaram todo o nosso vinho, mel e leite, abateram as vacas e entregaram o vinhedo à tocha. Depois disso... perdi a conta dos nossos visitantes. Esse falso septão foi apenas o último. Houve um monstro... demos-lhe toda a nossa prata, mas ele tinha certeza de que tínhamos ouro escondido, por isso seus homens mataram-nos um por um para fazer o Irmão Mais Velho falar.
– Como foi que vocês oito sobreviveram? – perguntou Anguy, o Arqueiro.
– Estou envergonhado – disse o velho. – Fui eu. Quando chegou a minha vez de morrer, disse-lhes onde o ouro estava escondido.
– Irmão – disse Thoros de Myr –, a única vergonha foi não lhes dizer imediatamente.
Naquela noite, os fora da lei abrigaram-se na cervejaria junto do pequeno rio. Seus anfitriões tinham um esconderijo cheio de comida sob o chão dos estábulos, e partilharam um jantar simples; pão de aveia, cebolas e uma sopa de couves aguada que tinha um leve gosto de alho. Arya encontrou uma fatia de cenoura flutuando na sua tigela e considerou-se sortuda. Os irmãos nunca perguntaram os nomes aos fora da lei.
– Que se dane com isso – disse Limo Manto Limão. – Ele também é o nosso deus, e vocês devem a nós suas miseráveis vidas. E o que tem ele de falso? Seu Ferreiro pode reparar uma espada quebrada, mas será que consegue reparar um homem quebrado?
– Basta, Limo – ordenou Lorde Beric. – Sob o teto deles, honraremos as regras deles.
– O sol não deixará de brilhar se pularmos uma prece ou duas – concordou brandamente Thoros. – Se alguém sabe disso, sou eu.
O próprio Lorde Beric não comeu. Arya nunca o vira comer, embora de tempos em tempos bebesse uma taça de vinho. Tampouco parecia dormir. O seu olho bom fechava-se com frequência, como que devido ao cansaço, mas quando se falava com ele, voltava a se abrir de imediato. O Senhor da Marcha continuava vestido com o seu maltrapilho manto negro e sua placa de peito amassada, com o relâmpago de esmalte lascado. Até dormia com aquela placa de peito. O baço aço negro escondia o terrível ferimento que Cão de Caça provocara nele, da mesma forma que seu espesso cachecol de lã ocultava o anel escuro que tinha em volta da garganta. Mas nada escondia a cabeça rachada, com um grande buraco na têmpora, ou o poço vermelho em carne viva que era o olho que lhe faltava, ou a forma do crânio sob o seu rosto.
Arya olhou-o com prudência, recordando todas as histórias que se contavam dele em Harrenhal. Lorde Beric pareceu sentir seu medo. Virou a cabeça e fez-lhe sinal para se aproximar.
– Eu a assusto, pequena?
– Não. – Arya mordeu o lábio. – É só que... bem... pensei que o Cão de Caça tinha matado você, mas...
– Um ferimento – disse Limo Manto Limão. – Um ferimento grave, sim, mas Thoros curou-o. Nunca existiu curandeiro melhor.
Lorde Beric fitou Limo com uma expressão estranha no olho bom e nenhuma expressão no outro, só cicatrizes e sangue seco.
– Não há melhor curandeiro – concordou num tom fatigado. – Limo, já passa da hora de trocar a guarda, creio eu. Trate disso, por favor.
– Sim, senhor. – O comprido manto amarelo de Limo rodopiou atrás dele ao penetrar na noite ventosa.
– Até os homens corajosos se cegam, às vezes, quando têm medo de ver – disse Lorde Beric depois de Limo partir. – Thoros, quantas vezes já me trouxe de volta?