Isso havia acontecido muitos anos antes, com certeza. O rapaz de dezesseis anos era agora um homem com mais de quarenta e sua lenda tornara-se mais sombria. Tinha viajado pelas Cidades Livres, onde aprendeu a arte dos venenos, e talvez artes ainda mais negras, caso se acreditasse nos rumores. Estudou na Cidadela, chegando até a forjar seis elos de uma corrente de meistre antes de se aborrecer. Serviu como soldado nas Terras Disputadas, do outro lado do mar estreito, acompanhando os Segundos Filhos durante algum tempo antes de formar a própria companhia. Seus torneios, suas batalhas, seus duelos, seus cavalos, sua luxúria... dizia-se que dormia tanto com homens quanto com mulheres e que tinha gerado bastardas por todo o Dorne. Os homens chamavam suas filhas de
E, claro, tinha mutilado o herdeiro de Jardim de Cima.
– Já nos encontramos uma vez – disse o príncipe dornês a Tyrion, com ligeireza, enquanto cavalgavam lado a lado pela estrada do rei, passando por campos de cinzas e esqueletos de árvores. – Mas não espero que se lembre. Era ainda menor do que é agora.
Na voz do homem, havia uma aresta de zombaria que desagradava a Tyrion, mas não ia permitir que o dornês o provocasse.
– Quando aconteceu isso, senhor? – perguntou, num tom de interesse educado.
– Oh, há muitos e muitos anos, quando minha mãe governava em Dorne e o senhor seu pai era Mão de um rei diferente.
– Foi quando visitei Rochedo Casterly com a minha mãe, o seu consorte e a minha irmã Elia. Tinha, oh, catorze, quinze anos, por aí, e Elia era um ano mais velha. O seu irmão e sua irmã tinham oito ou nove anos, se bem me lembro, e você havia acabado de nascer.
– Ele não era o mesmo homem depois que ela morreu, Duende – disse-lhe um dia o tio Gery. – A melhor parte dele morreu com ela. – Gerion era o mais novo dos quatro filhos de Lorde Tytos Lannister, e o tio de que Tyrion mais gostava.
Mas agora estava desaparecido, perdido além dos mares, e o próprio Tyrion tinha levado a Senhora Joanna para a sepultura.
– Achou Rochedo Casterly do seu agrado, senhor?
– Pouco. O seu pai ignorou-nos todo o tempo que lá estivemos, depois de ordenar a Sor Kevan que tratasse de nos entreter. A cela que me deram tinha uma cama de penas e tapetes de Myr no chão, mas era escura e não tinha janelas, muito semelhante a uma masmorra se você parar para pensar, tal como eu disse a Elia na época. Seus céus eram cinzentos demais, seus vinhos, doces demais, suas mulheres, castas demais, sua comida, insípida demais... e você foi o maior desapontamento de todos.
– Tinha acabado de nascer. O que esperava de mim?
– Enormidade – respondeu o príncipe de cabelo negro. – Era pequeno mas afamado. Estávamos em Vilavelha quando de seu nascimento, e a cidade só falava do monstro que tinha nascido da Mão do Rei, e de como aquilo podia ser um mau presságio para o reino.
– Fome, peste e guerra, sem dúvida. – Tyrion deu um sorriso amargo. – É sempre fome, peste e guerra. Ah, e o inverno, e a longa noite que nunca termina.
– Tudo isso – disse o Príncipe Oberyn – e também a queda de seu pai. Ouvi um irmão mendicante pregar que Lorde Tywin se tornara maior do que o Rei Aerys, mas só um deus deve estar acima de um rei. Você seria a sua maldição, uma punição enviada pelos deuses para lhe ensinar que não era melhor do que qualquer outro homem.
– Eu tento, mas ele recusa-se a aprender. – Tyrion soltou um suspiro. – Prossiga, por favor. Adoro uma boa história.