Tornou-se evidente de imediato que o vestido fora cortado para alguém com braços mais esbeltos, pernas mais curtas e seios muito mais cheios. A fina renda de Myr pouco fazia para ocultar os hematomas que manchavam a pele de Brienne. Juntando tudo, o vestido fazia a garota parecer ridícula.
Qyburn também tinha trazido um frasco.
– O que é isso? – perguntou Jaime quando o meistre sem colar insistiu para que bebesse.
– Alcaçuz macerado em vinagre, com mel e cravo. Vai dar alguma força e limpar a sua cabeça.
– Traga-me a poção que faz nascer novas mãos – disse Jaime. – É essa que eu desejo.
– Beba – disse Brienne, sem sorrir, e ele bebeu.
Passou-se meia hora até que se sentisse suficientemente forte para ficar em pé. Depois do calor sombrio e úmido da casa de banhos, o ar lá fora foi como um tapa na cara.
– A esta hora, o senhor deve andar à procura dele – disse um guarda a Qyburn. – E dela também. Tenho de carregá-lo?
– Ainda consigo andar. Brienne, dê-me o braço.
Agarrando-se a ela, Jaime permitiu que o pastoreassem através do pátio e para o interior de um grande salão cheio de correntes de ar, que era maior até do que a sala do trono em Porto Real. Enormes lareiras abriam-se nas paredes, uma a cada três metros, mais ou menos, em maior número do que ele era capaz de contar, mas nenhum fogo fora aceso, e o frio entre as paredes chegava aos ossos. Uma dúzia de lanceiros com manto de peles guardava as portas e os degraus que levavam às duas galerias superiores. E, no centro daquele imenso vazio, em uma mesa de montar rodeada por aquilo que parecia ser acres de assoalho liso de ardósia, o Senhor do Forte do Pavor aguardava, servido apenas por um copeiro.
– Senhor – disse Brienne, quando se aproximaram dele.
Os olhos de Roose Bolton eram mais claros do que pedra, mais escuros do que leite, e sua voz tinha a suavidade das aranhas.
– Agrada-me vê-lo suficientemente forte para me fazer companhia, sor. Senhora, sente-se. – Fez um gesto para o queijo, o pão, as carnes frias e as frutas que cobriam a mesa. – Preferem branco ou tinto? Receio que sejam de uma colheita banal. Sor Amory deixou a adega da Senhora Whent quase seca.
– Confio que o tenha mandado matar por isso. – Jaime deslizou rapidamente para a cadeira que lhe foi oferecida, de modo que Bolton não pudesse ver quão fraco se encontrava. – Branco é para os Stark. Bebo do tinto, como um bom Lannister.
– Eu preferiria água – disse Brienne.
– Elmar, o tinto para Sor Jaime, água para a Senhora Brienne e hipocraz para mim. – Bolton sacudiu uma mão na direção da escolta, mandando-a embora, e os homens se retiraram em silêncio.
O hábito levou Jaime a estender a mão direita para o vinho. O coto fez a taça balançar, salpicando de vermelho vivo suas ataduras de linho limpas e forçando-o a pegar a taça com a mão esquerda antes que ela caísse, mas Bolton fingiu não notar sua falta de jeito. O nortenho serviu-se de uma ameixa seca e comeu-a com pequenas e rápidas dentadas.
– Experimente estas ameixas, Sor Jaime. São extremamente doces, e também ajudam as tripas a trabalhar. Lorde Vargo tirou-as de uma estalagem antes de incendiá-la.
– Minhas tripas trabalham bem, o bode não é lorde nenhum, e suas ameixas não me despertam nem metade do interesse que sinto por suas intenções.
– A seu respeito? – um leve sorriso tocou os lábios de Roose Bolton. – É um troféu perigoso, sor. Semeia a discórdia onde quer que vá. Até aqui, em minha feliz casa de Harrenhal. – Sua voz era um milímetro acima de um murmúrio. – E em Correrrio também, ao que parece. Sabe que Edmure Tully ofereceu mil dragões de ouro por sua recaptura?
– Minha irmã pagará dez vezes esse valor.
– Ah, sim? – de novo aquele sorriso, exibido por um instante, desaparecido no seguinte. – Dez mil dragões é uma soma formidável. Claro, deve-se também considerar a oferta de Lorde Karstark. Ele promete a mão da filha dele ao homem que lhe trouxer sua cabeça.
– Só mesmo seu bode para entender isso ao contrário – disse Jaime.
Bolton soltou um suave risinho.
– Harrion Karstark era cativo aqui quando tomamos o castelo, sabia? Dei-lhe todos os homens de Karhold que ainda tinha comigo e mandei-o com Glover. Espero que nada de mal lhe aconteça em Valdocaso... caso contrário, Alys Karstark será tudo que resta da descendência de Lorde Rickard. – Escolheu outra ameixa seca. – Felizmente para você não preciso de uma esposa. Casei com a Senhora Walda Frey enquanto estava nas Gêmeas.
– A Bela Walda? – desajeitadamente, Jaime tentou segurar o pão com o coto enquanto o partia com a mão esquerda.