– Um cão tem honra? – perguntou o sacerdote. – Caso pense em tentar abrir caminho para a liberdade com a espada ou tomar alguma criança como refém... Anguy, Dennet, Kyle, encham-no de penas ao primeiro sinal de traição. – Só depois de os três arqueiros prepararem suas flechas é que Thoros entregou a Clegane o cinto.
Cão de Caça libertou a espada com um movimento brusco e jogou fora a bainha. Caçador Louco entregou-lhe seu escudo de carvalho, cheio de tachões de ferro e pintado de amarelo, exibindo os três cães negros de Clegane. O pequeno Ned ajudou Lorde Beric com seu escudo, tão desgastado e cheio de marcas de golpes que o relâmpago púrpura e as estrelas esparramadas tinham sido quase obliterados.
Mas quando Cão de Caça ameaçou se aproximar do adversário, Thoros de Myr impediu-o.
– Primeiro oramos. – Virou-se para o fogo e ergueu os braços. – Senhor da Luz, olhe para nós.
Por toda a gruta, a irmandade sem estandartes ergueu as vozes em resposta.
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– Senhor da Luz, proteja-nos na escuridão.
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– Acenda a sua chama entre nós, R’hllor – disse o sacerdote vermelho. – Mostre-nos a verdade ou a falsidade deste homem. Abata-o se for culpado, e empreste força à sua espada se for inocente. Senhor da Luz, dê-nos sabedoria.
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– Esta gruta também é escura – disse Cão de Caça –, mas aqui o terror sou eu. Espero que seu deus seja bom, Dondarrion. Vai encontrá-lo em breve.
Sem sorrir, Lorde Beric apoiou o gume da espada na palma da mão esquerda e puxou-a lentamente para baixo. O sangue correu, escuro, do golpe que ele fez, e espalhou-se pelo aço.
E então a espada incendiou-se.
Arya ouviu Gendry sussurrar uma prece.
– Que queime nos sete infernos – praguejou Cão de Caça. – Você e Thoros também. – Lançou um olhar de relance ao sacerdote vermelho. – Quando acabar com ele, você é o próximo, Myr.
– Cada palavra que pronuncia proclama a sua culpa, cão – respondeu Thoros, enquanto Limo, Barba-Verde e Jack Sortudo gritavam ameaças e pragas. O próprio Lorde Beric esperava em silêncio, calmo como águas paradas, com o escudo no braço esquerdo e a espada ardendo na mão direita.
Mas quando Cão de Caça avançou sobre ele, moveu-se bastante depressa.
A espada flamejante saltou para parar a fria, com longas flâmulas de fogo a segui-la como as fitas de que Cão de Caça falara. Aço ressoou em aço. Assim que o seu primeiro golpe foi parado, Clegane lançou um segundo, mas daquela vez o escudo de Lorde Beric colocou-se no caminho da espada, e voaram lascas de madeira com a força da pancada. As estocadas vieram duras e rápidas, de baixo e de cima, da direita e da esquerda, e todas elas foram bloqueadas por Dondarrion. As chamas rodopiavam em volta de sua espada e deixavam para trás fantasmas vermelhos e amarelos marcando sua passagem. Cada movimento de Lorde Beric atiçava-as e fazia-as arder mais fortemente até parecer que o senhor do relâmpago se encontrava no interior de uma jaula de fogo.
– É fogovivo? – perguntou Arya a Gendry.
– Não. Isso é diferente. Isso é...
– ... magia? – concluiu ela no momento em que Cão de Caça recuava.
Agora era Lorde Beric que atacava, enchendo o ar com cordões de fogo, fazendo o homem maior apoiar-se nos calcanhares. Clegane parou um golpe elevado com o escudo, e um cão pintado perdeu uma cabeça. Contra-atacou, e Dondarrion interpôs o seu escudo e atirou um golpe incendiário para trás. A irmandade fora da lei incitava seu chefe aos gritos. “
Lorde Beric não lhe deu descanso. Pressionou duramente o homem maior, sem parar um momento de movimentar o braço. As espadas colidiram, saltaram para longe e voltaram a colidir, voaram lascas do escudo do relâmpago enquanto chamas rodopiantes beijavam os cães uma, duas, três vezes. Cão de Caça moveu-se para a direita, mas Dondarrion bloqueou-o com um rápido passo para o lado e empurrou-o para o outro ... na direção do soturno clarão vermelho da fogueira. Clegane cedeu terreno até sentir o calor em suas costas. Um rápido relance de olhos sobre o ombro mostrou-lhe o que havia atrás de si, e quase lhe custou a cabeça quando Lorde Beric atacou novamente.