– Os cães apanharam o cheiro. Estava se recuperando de uma bebedeira debaixo de um salgueiro, por incrível que pareça.
– Traído por sua própria espécie. – Thoros virou-se para o prisioneiro e arrancou seu capuz. – Bem-vindo ao nosso humilde salão, cão. Não é tão grandioso quanto a sala de trono de Robert, mas a companhia é melhor.
As chamas oscilantes pintaram o rosto queimado de Sandor Clegane com sombras cor de laranja, deixando-o com um aspecto ainda mais terrível do que à luz do dia. Quando puxou a corda que lhe atava os pulsos, lascas de sangue seco caíram no chão. A boca do Cão de Caça torceu-se.
– Conheço você – disse ele a Thoros.
– Conheceu. Em lutas corpo a corpo costumava amaldiçoar a minha espada flamejante, embora por três vezes eu o tenha derrotado com ela.
– Thoros de Myr. Costumava raspar a cabeça.
– Para denotar um coração humilde, embora na realidade meu coração fosse vaidoso. Além disso, perdi a navalha na floresta. – O sacerdote deu um tapinha na barriga. – Sou menos do que era, mas sou mais. Um ano no meio da natureza derrete a carne do corpo de um homem. Bem que gostaria de encontrar um alfaiate que me apertasse a pele. Poderia voltar a parecer jovem, e belas donzelas iriam me banhar com beijos.
– Só as cegas, sacerdote.
Os fora da lei riram, nenhum tão alto quanto Thoros.
– Exatamente. Mas não sou o falso sacerdote que conhecia. O Senhor da Luz despertou no meu coração. Muitos poderes há muito adormecidos estão despertando, e há forças em movimento sobre a terra. Vi-as nas minhas chamas.
Cão de Caça não se mostrou impressionado.
– Que se fodam as suas chamas. E que se foda você também. – Passou o olhar pelos outros. – Anda em estranha companhia para um homem santo.
– Estes são meus irmãos – disse Thoros simplesmente.
Limo Manto Limão abriu caminho entre os outros. Ele e Barba-Verde eram os únicos homens com altura suficiente para olhar Cão de Caça nos olhos.
– Tenha cuidado com a maneira como late, cão. Temos a sua vida nas mãos.
– Então é melhor que você limpe a merda dos dedos. – Cão de Caça soltou uma gargalhada. – Há quanto tempo estão escondidos neste buraco?
Anguy, o Arqueiro, irritou-se com a sugestão de covardia.
– Pergunte ao bode se temos estado escondidos, Cão de Caça. Pergunte ao seu irmão. Pergunte ao senhor das sanguessugas. Tiramos sangue de todos eles.
– Vocês? Não me façam rir. Parecem mais guardadores de porcos do que soldados.
– Alguns de nós éramos guardadores de porcos – disse um homem baixo que Arya não conhecia. – E alguns éramos curtidores, cantores ou pedreiros. Mas isso foi antes de vir a guerra.
– Quando partimos de Porto Real, éramos homens de Winterfell, homens de Darry e homens de Portonegro, homens dos Mallery e homens dos Wylde. Éramos cavaleiros, escudeiros e homens de armas, senhores e plebeus, unidos apenas pelo nosso objetivo. – A voz vinha do homem sentado entre as raízes de represeiro a meia altura da parede. – Seis vintenas de nós partiram para levar a justiça do rei ao seu irmão. – O orador vinha descendo o emaranhado de degraus em direção ao chão. – Seis vintenas de homens bravos e leais, liderados por um tolo com um manto estrelado. – Um homem que mais parecia um espantalho, ele usava um manto negro em farrapos salpicado de estrelas e uma placa de peito de ferro amassada por uma centena de batalhas. Um matagal de pelos ruivo-alourados escondia a maior parte de seu rosto, exceto numa zona calva por cima de sua orelha esquerda, onde um golpe havia aberto uma concavidade na cabeça. – Mais de oitenta membros da nossa companhia estão agora mortos, mas outros pegaram as espadas que caíram de suas mãos. – Quando chegou ao chão, os fora da lei afastaram-se para deixá-lo passar. Arya viu que ele tinha perdido um dos olhos, e a pele em volta da órbita estava pregueada e cheia de cicatrizes, e ostentava um anel negro em volta do pescoço. – Com a ajuda deles, continuamos a lutar o melhor que podemos, por Robert e pelo reino.
– Robert? – arranhou Sandor Clegane, incrédulo.
– Ned Stark enviou-nos – disse Jack Sortudo com seu elmo redondo –, mas ele estava sentado no Trono de Ferro quando nos deu as ordens, portanto nunca fomos realmente homens dele, e sim de Robert.
– Robert agora é o rei dos vermes. É por isso que estão debaixo da terra, para serem a sua corte?
– O rei está morto – admitiu o cavaleiro-espantalho –, mas continuamos a ser homens do rei, embora o estandarte real que trazíamos tenha sido perdido no Vau do Saltimbanco quando os carniceiros de seu irmão caíram sobre nós. – Tocou o peito com um punho. – Robert foi morto, mas sua terra perdura. E nós a defendemos.
– Defendem-