Já tinha sido ferido antes, mas nunca assim. Nunca soubera que podia haver uma dor tamanha. Às vezes, sem serem chamadas, velhas preces saíam borbulhando de seus lábios, preces que tinha aprendido quando criança e nas quais não voltara a pensar, preces que proferira pela primeira vez com Cersei ajoelhada ao seu lado no septo de Rochedo Casterly. Às vezes até chorava, até ouvir os Saltimbancos rindo. Então obrigou os olhos a secar e o coração a morrer, e rezou para que a febre queimasse suas lágrimas.
Depois de cair pela segunda vez da sela, ataram-no bem a Brienne de Tarth e obrigaram-nos de novo a dividir um cavalo. Um dia, em vez de os colocarem unidos pelas costas, amarraram-nos cara a cara.
– Os amantes – suspirou sonoramente Shagwell –, e que bela visão que formam. Seria cruel separar o bom cavaleiro de sua senhora. – Então soltou aquela sua gargalhada esganiçada e disse: – Ah, mas qual deles é o cavaleiro e qual é a senhora?
A mão sempre estava entre os dois. Urswyck a havia pendurado ao pescoço dele com um cordão, e ela balançava de encontro ao seu peito, batendo nos seios de Brienne enquanto Jaime ia perdendo e recuperando os sentidos. Seu olho direito estava fechado devido ao inchaço, um ferimento inflamado no local em que Brienne o golpeara durante a luta, mas era sua mão que mais doía. Sangue e pus jorravam do coto, e a mão em falta latejava toda vez que o cavalo dava um passo.
Tinha a garganta tão inflamada que não podia comer, mas bebia vinho quando davam, e água quando não havia alternativa. Uma vez deram-lhe uma taça, e ele esvaziou-a de um trago só, tremendo, e os Bravos Companheiros estouraram em gargalhadas tão roucas e sonoras que deixaram seus ouvidos doendo.
– Isso que você tá bebendo é mijo de cavalo, Regicida – disse-lhe Rorge. Jaime tinha tanta sede que bebeu mesmo assim, mas depois vomitou tudo. Obrigaram Brienne a lavar o vômito da barba dele, tal como a obrigavam a limpá-lo quando se sujava na sela.
Numa manhã fria e úmida em que estava se sentindo ligeiramente mais forte, foi tomado por um ataque de loucura, estendeu a mão esquerda para a espada do dornês e arrancou-a desajeitadamente da bainha.
Por fim, Rorge afastou-o com um empurrão e, com um pontapé, arrancou a espada dos fracos dedos de Jaime quando este tentou erguê-la.
– Iffo foi divertido, Regifida – disse Vargo Hoat –, maf fe voltar a tentar, corto fua outra mão, ou talvef um pé.
Jaime ficou deitado de costas depois, fitando o céu noturno, tentando não sentir a dor que serpenteava seu braço direito acima sempre que o movia. A noite estava estranhamente bela. A lua era um gracioso crescente, e parecia que nunca tinha visto tantas estrelas. A Coroa do Rei encontrava-se no zênite, e via o Garanhão empinando-se, e ali o Cisne. A Donzela da Lua, tímida como sempre, estava meio escondida atrás de um pinheiro.
– Jaime – sussurrou Brienne, tão baixo que pensou que sonhava. – Jaime, o que está fazendo?
– Estou morrendo – murmurou de volta.
– Não – disse ela –, não, tem de sobreviver.
Aquilo deu-lhe vontade de rir.
– Pare de me dizer o que fazer, garota. Eu morro se quiser.
– É assim tão covarde?
A palavra chocou-o. Ele era Jaime Lannister, um cavaleiro da Guarda Real, era o Regicida. Nunca homem algum o chamara de covarde. Chamavam-no de outras coisas, sim; perjuro, mentiroso, assassino. Diziam que era cruel, traiçoeiro, imprudente. Mas covarde, nunca.
– O que posso fazer além de morrer?