– Deixe que façam o que querem e retire-se para dentro. – Foi o que fizera quando os Stark morreram na sua frente, Lorde Rickard cozinhando dentro de sua armadura enquanto o filho Brandon se estrangulava na tentativa de salvá-lo. – Pense em Renly, se o amava. Pense em Tarth, em montanhas e mares, lagoas, cascatas, seja o que for que tenha na sua Ilha Safira, pense...
Mas, a essa altura, Rorge já tinha ganhado a discussão.
– É a mulher mais feia que eu já vi – disse a Brienne –, mas não ache que não posso deixá-la mais feia ainda. Quer um nariz como o meu? Lute, e fica com um. E dois olhos são demais. Um grito vindo de você e arranco um e obrigo você a comê-lo, e depois arranco a merda dos seus dentes um a um.
– Oh, faça isso, Rorge – pediu Shagwell. – Sem os dentes, ela fica bem parecida com a minha querida mãe. – Soltou um cacarejo. – E eu
Jaime soltou uma risadinha.
– Ora, aí está um bobo engraçado. Tenho uma charada para você, Shagwell. Por que você se importa que ela grite? Ah, espere, eu sei. – E gritou o mais alto que pôde: – SAFIRAS.
Praguejando, Rorge voltou a chutar seu coto. Jaime soltou um uivo.
– Ela não deve fer tocada – gritou o bode, enchendo Zollo de perdigotos. – Ela tem de fer donfela, feuf idiotaf! Ela vale um faco de fafiraf! – E daí em diante, Hoat colocou guardas junto a eles todas as noites, para protegê-los de seus próprios homens.
Duas noites passaram em silêncio antes de a garota finalmente encontrar coragem para murmurar:
– Jaime? Por que gritou?
– Por que foi que gritei
– Não precisava ter gritado nada.
– Já é suficientemente difícil olhar para você
– Seja como for – disse ela. – Agradeço-lhe, sor.
A mão dele estava latejando de novo. Apertou os dentes e disse:
– Um Lannister paga as suas dívidas. Aquilo foi pelo rio, e por aquelas pedras que despejou em cima de Robin Ryger.
O bode quis fazer de sua entrada em Harrenhal um espetáculo, então Jaime foi obrigado a desmontar a um quilômetro e meio dos portões do castelo. Uma corda foi amarrada em volta de sua cintura, e uma segunda em torno dos pulsos de Brienne; as extremidades foram atadas ao arção da sela de Vargo Hoat. Avançaram aos tropeções, lado a lado, atrás do zebralo listrado do qohorik.
A raiva de Jaime manteve-o em movimento. O linho que cobria seu coto estava cinzento e fedia a pus. Seus dedos fantasmas gritavam a cada passo.
Ao se aproximarem das muralhas semelhantes a falésias do monstruoso castelo de Harren, o Negro, Brienne apertou seu braço.
– Lorde Bolton controla este castelo. Os Bolton são vassalos dos Stark.
– Os Bolton esfolam os inimigos. – Isso era tudo que Jaime recordava do nortenho. Tyrion conheceria tudo que havia para saber sobre o senhor do Forte do Pavor, mas encontrava-se a mil léguas de distância, com Cersei.
A aldeia junto às muralhas tinha sido reduzida a cinzas e pedras enegrecidas, e muitos homens e cavalos tinham acampado recentemente junto à margem do lago, no local onde Lorde Whent havia organizado seu grande torneio no ano da falsa primavera. Um sorriso amargo tocou os lábios de Jaime ao atravessarem aquele terreno revolvido. Alguém tinha escavado uma fossa sanitária no exato local onde ele ajoelhara um dia para proferir seus votos.
– Os estandartes – observou Brienne. – Homem esfolado e torres gêmeas, veja. Homens juramentados ao Rei Robb. Ali, por cima da guarita, cinza sobre fundo branco. Eles exibem o lobo gigante.
Jaime torceu a cabeça para cima, para dar uma olhada.