Читаем Gai-jin полностью

Bakufu é como piolhos numa prisão... você destrói mil e só faz abrir espaço para mais cem mil. Não, o Bakufu e o xogunato são o Nipão, conosco para sempre.



— Taira-san esta noite aqui?



Raiko sacudiu a cabeça.



— A mulher que ele queria não estava disponível. Ofereci outra, mas ele recusou e foi embora. Curioso, neh? Um jovem curioso, em muitas coisas, embora talvez um bom freguês. Obrigada por apresentá-lo à minha humilde casa.



— Esse japonês, sensei, o mestre, o samurai que Taira descobriu... quem é ele, Raiko?



— Não sei. Ouvi dizer que é um homem de Iedo e mora agora na colônia, na aldeia.



— Taira-san fala com Fujiko sobre ele?



— Ela nunca mencionou, mas também não perguntei. Talvez eu saiba alguma coisa na próxima vez, Furansu-san.



André não acreditava nela, mas também não tinha importância, pensou ele; quando estiver disposta, Raiko me contará tudo o que sabe.



— Arrumou o medicamento?



— Claro. Tudo o que eu puder fazer para ajudar um cliente predileto é meu propósito na vida.



Ele pôs na mesa o par de brincos de pérolas. Os olhos de Raiko faiscaram. Não fez qualquer movimento para pegá-los, mas André teve certeza que ela os avaliara mentalmente no mesmo instante, determinando a qualidade, o custo e o valor de revenda.



— Pediram-me que lhe desse isto como presente — comentou ele, jovial. Raiko sorriu, insinuante, fingiu estar emocionada, embora já soubesse que o pagamento seria em jóias, que não poderiam ser revendidas em Iocoama. Seus dedos tremiam quando estendeu-os para pegar os brincos. Mas André se antecipou, recolheu-os, simulou que os examinava com o máximo de atenção.



Seu plano para Angelique funcionara com perfeição. Criados da Casa Nobre haviam vasculhado as ruas em vão. A ansiedade e as lágrimas de Angelique foram genuínas e ela sussurrara em particular:



— Oh, André, fiz o que era certo? Malcolm ficou transtornado... eu não tinha idéia de que os brincos eram tão caros.



— Mas ele não disse para você assinar tudo o que quisesse? Não é culpa sua não ter perguntado o preço... e ele gostou das abotoaduras, não é?



— Gostou, sim, mas...



— Sobrará o suficiente para alguma necessidade... um crédito contra qualquer eventualidade, Angelique.



André sorriu para si mesmo e voltou a concentrar sua atenção em Raiko.



— Vale muitas vezes o custo do medicamento.



— O preço de compra, sem dúvida. Mas tenho de mandar para a Yoshiwara de Iedo ou de Nagasáqui. Uma venda difícil. Mas, por favor, não se preocupe. Ajudarei a se livrar de uma criança indesejada.



— Não é minha — protestou ele, um tanto brusco.



— Ah, por favor, desculpe. — Raiko acreditou nele e refletiu que era melhor assim, bastante aliviada, pois não queria mais complicações com aquele cliente.



— Não é da minha conta.



— Só estou ajudando a amiga de um amigo. Na cidade dos bêbados.



— Por favor, desculpe-me. Ele sorriu, sem qualquer humor.



— Conhece pérolas. Estas valem cinqüenta vezes o custo do medicamento Raiko manteve o sorriso, a voz suave, mas por dentro estava rangendo os dentes.



— Mandarei avaliar. Claro que valem mais que o custo do medicamento.



— Sei disso.



André estendeu a mão aberta, e ela pegou os brincos. As pérolas eram quase pretas. Pérolas da ilha do Sul. Raiko encostou-as nos dentes, para sentir se eram frias, mordeu-as com extremo cuidado, mas não ficaram marcadas. Convencida agora de que eram genuínas e preciosas, ela murmurou:



— O preço, caro amigo?



— O preço é todo o medicamento, mesmo que falhe na primeira vez. O que for necessário, se a poção não fizer efeito, entendido? O que for preciso... qualquer coisa... para tirar a criança. Certo?



— Certo — concordou Raiko, feliz, sabendo que era um grande negócio. — Uma garantia... da remoção, da eliminação.





— Mais vinte oban de ouro — acrescentou ele, deliciado ao ver o rosto de Raiko se contrair num horror sincero, embora ainda fosse menos de um terço do que conseguiria na venda... o engaste era de pouco valor, mas ele cuidara para que o joalheiro chinês usasse apenas as melhores pérolas. Ela se lamentou, praguejou, barganharam por algum tempo, ambos apreciando a confrontação, ambos sabendo que o verdadeiro custo do medicamento e do conselho médico não representavam muita coisa para uma mama-san de bordel. Logo estavam prestes a fechar o negócio e foi nesse instante que o ânimo de Raiko mudou abruptamente; ela fitou-o de maneira estranha, gostando dele, triste por seu destino, e pensou: Devo interferir com o karma?



— O que é? — indagou André, desconfiado.



— Deixe-me pensar por um momento, Furansu-san.



Depois, numa voz muito diferente, afetuosa e suave, como nos velhos tempos, quando ele fora seu primeiro freguês, e oferecia vinho e jantar a toda a casa, para comemorar a abertura, Raiko disse:



— Desde que nos conhecemos, muita água passou sob muitas pontes, houve tempos de prazer e riso em nosso mundo flutuante e também, como acontece nessa vida, de tristeza e um lago de lágrimas, mas não por opção minha. Lembrei de repente que a última vez em que barganhamos assim foi pelo contrato de Hana.



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