– É muita bondade de Vossa Graça. Sofri pesadas perdas no Ramo Verde, e Glover e Tallhart mais ainda em Valdocaso.
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– Uma loucura – concordou Lorde Bolton –, mas Glover tornou-se imprudente depois de saber que Bosque Profundo tinha caído. O desgosto e o medo fazem isso aos homens.
Valdocaso era um assunto terminado e antigo; eram as batalhas ainda a travar que preocupavam Catelyn.
– Quantos homens trouxe ao meu filho? – perguntou a Roose Bolton num tom contundente.
Os estranhos olhos sem cor do homem estudaram seu rosto por um instante antes de responder.
– Cerca de quinhentos homens de cavalaria e três mil de infantaria, senhora. Homens do Forte do Pavor, na sua maior parte, e alguns de Karhold. Com a lealdade dos Karstark agora tão duvidosa, achei melhor mantê-los por perto. Lamento que não sejam mais.
– Deverá bastar – disse Robb. – Ficará com o comando de minha retaguarda, Lorde Bolton. Pretendo me dirigir ao Gargalo assim que meu tio estiver casado. Vamos para casa.
ARYA
Os batedores aproximaram-se deles a uma hora do Ramo Verde, quando a carroça se arrastava ao longo de uma estrada lamacenta.
– Fique com a cabeça abaixada e a boca fechada – avisou-a Cão de Caça quando os três esporearam os cavalos na direção deles; um cavaleiro e dois escudeiros, com armaduras leves e montados em palafréns rápidos.
Clegane chicoteou a parelha, um par de velhos cavalos de tração que já tinham conhecido dias melhores. A carroça rangia e oscilava, suas duas enormes rodas de madeira faziam esguichar lama dos profundos sulcos da estrada a cada curva. Estranho seguia atrás, amarrado ao veículo.
O grande corcel de temperamento ruim não usava armadura, jaezes ou arreios, e o próprio Cão de Caça seguia vestido de tecido grosseiro, verde e sujo, e uma capa de um cinza fuliginoso com um capuz que engolia sua cabeça. Desde que mantivesse os olhos baixos não era possível ver seu rosto, enxergava-se apenas o branco de seus olhos espreitando para fora. Parecia um agricultor empobrecido. Mas um agricultor grande. E Arya sabia que sob o tecido grosseiro havia couro fervido e cota de malha oleada. Ela parecia um filho de agricultor, ou talvez de um criador de porcos. E atrás deles seguiam quatro barris rotundos de porco salgado e um de pés de porco em salmoura.
Os homens a cavalo dispersaram-se e cercaram-nos para observá-los antes de se aproximarem. Clegane fez a carroça parar e esperou pacientemente. O cavaleiro portava lança e espada, ao passo que seus escudeiros usavam arcos. O símbolo em seus gibões era uma versão menor daquele que seu chefe trazia cosido ao sobretudo; uma forquilha negra sobre barra dourada à direita, em fundo cor de ferrugem. Arya tinha pensado em se revelar aos primeiros batedores que encontrassem, mas sempre imaginara homens de manto cinzento, com o lobo gigante ao peito. Até poderia ter arriscado, caso tivessem exibido o gigante de Umber ou o punho de Glover, mas não conhecia o cavaleiro da forquilha nem sabia a quem ele servia. A coisa mais parecida com uma forquilha que tinha visto em Winterfell foi o tridente na mão do tritão de Lorde Manderly.
– Tem negócios nas Gêmeas? – perguntou o cavaleiro.
– Porco salgado para o banquete de casamento, por sua mercê, sor. – Cão de Caça murmurou a resposta, de olhos baixos e rosto escondido.
– Porco salgado nunca me agradou. – O cavaleiro da forquilha não deu a Clegane mais do que o mais apressado dos relances e não prestou qualquer atenção em Arya, mas olhou longa e duramente para o Estranho. O garanhão não era nenhum cavalo de tração, isso ficava claro à primeira vista. Um dos escudeiros quase acabou na lama quando o grande corcel negro deu uma mordida em sua montaria. – Como arranjou este animal? – exigiu saber o cavaleiro da forquilha.
– A senhora disse-me para trazê-lo, sor – disse humildemente Clegane. – É um presente de casamento para o jovem Lorde Tully.
– Que senhora? A quem serve?
– À velha Senhora Whent, sor.
– Será que ela pensa que pode comprar Harrenhal de volta com um cavalo? – perguntou o cavaleiro. – Deuses, haverá algum tolo maior do que um velho tolo? – Mas fez sinal para que avançassem. – Sigam em frente, então.
– Sim, senhor. – Cão de Caça voltou a estalar o chicote, e os velhos cavalos de carga retomaram seu cansativo rumo. As rodas tinham se enterrado profundamente na lama durante a pausa, e foi preciso algum tempo para que a parelha retomasse o movimento. A essa altura, os batedores já se afastavam. Clegane dirigiu-lhes um último olhar e fungou. – Sor Donnel Haigh – disse. – Tirei mais cavalos dele do que sou capaz de contar. E armaduras também. Uma vez quase o matei num corpo a corpo.
– Então como é que ele não o reconheceu? – perguntou Arya.