“Porém, o Rei Robert gostava de mim. Da primeira vez que entrei num corpo a corpo com uma espada flamejante, o cavalo de Kevan Lannister empinou-se e atirou-o ao chão, e Sua Graça riu tanto que eu pensei que explodiria. – A recordação fez o sacerdote vermelho sorrir. – Mas aquilo não era maneira de tratar uma lâmina, o seu mestre também tinha razão quanto a isso.”
– O fogo consome. – Lorde Beric estava em pé atrás deles, e havia algo na sua voz que silenciou Thoros de imediato. – Ele
– Beric. Querido amigo. – O sacerdote tocou o senhor do relâmpago no antebraço. – O que está dizendo?
– Nada que já não tenha dito. Seis vezes, Thoros? Seis vezes é muito. – Afastou-se abruptamente.
Naquela noite, o vento uivava quase como um lobo, e havia alguns lobos de verdade a oeste dando lições a ele. Notch, Anguy e Merrit de Vilalua estavam de vigia. Ned, Gendry e muitos dos outros dormiam profundamente quando Arya vislumbrou a pequena silhueta clara que se movia por trás dos cavalos, com cabelos finos e brancos esvoaçando loucamente, enquanto se apoiava numa bengala cheia de nós. A mulher não podia ter mais de noventa centímetros de altura. A luz da fogueira fazia seus olhos cintilarem num tom tão vermelho quanto o dos olhos do lobo de Jon.
Thoros e Limo faziam companhia ao Lorde Beric quando a anã se sentou junto da fogueira sem ser convidada. Olhou-os de soslaio, com olhos que eram como carvões ardentes.
– A Brasa e o Limão vêm de novo me visitar, com Sua Graça, o Senhor dos Cadáveres.
– Um nome de mau agouro. Já lhe pedi que não o usasse.
– Sim, pediu. Mas o fedor da morte é fresco em você, senhor. – Não lhe restava mais do que um dente. – Dê-me vinho, senão vou embora. Meus ossos estão velhos. Minhas articulações doem quando os ventos sopram, e aqui em cima os ventos não param de soprar.
– Um veado de prata por seus sonhos, senhora – disse Lorde Beric, com uma solene cortesia. – E outro se tiver notícias para nos dar.
– Não posso comer um veado de prata e também não posso montá-lo. Um odre de vinho por meus sonhos, e, pelas notícias, um beijo do grande idiota com o manto amarelo. – A pequena mulher soltou um cacarejo. – Sim, um beijo molhado, um pouco de língua. Passou-se tempo demais, demais. A boca dele vai ter gosto de limões e a minha, de ossos. Sou velha demais.
– Sim – protestou Limo. – Velha demais para vinho e beijos. Tudo que levará de mim é a parte romba da espada, bruxa.
– Meus cabelos caem aos montes e ninguém me beija há mil anos. É duro ser tão velha. Bem, nesse caso aceito uma canção. Uma canção do Tom das Sete, pelas notícias.
– Terá a sua canção do Tom – prometeu Lorde Beric. Foi ele mesmo que lhe entregou o odre de vinho.
A anã bebeu profundamente, deixando escorrer vinho pelo queixo abaixo. Quando baixou o odre, limpou a boca com as costas de uma mão enrugada e disse:
– Vinho amargo por notícias amargas, o que poderia ser mais adequado? O rei está morto, isso é suficientemente amargo para você?
O coração de Arya ficou preso na garganta.
–
– O molhado. O rei da lula gigante, senhores. Sonhei que ele estava morto, e ele morreu, e agora as lulas de ferro viraram-se umas contra as outras. Oh, e Lorde Hoster Tully também morreu, mas vocês sabem disso, não é verdade? No salão dos reis, o bode está só e febril, enquanto o grande cão cai sobre ele. – A velha bebeu outro longo trago de vinho, espremendo o odre enquanto o levava aos lábios.
– Sonhei com um lobo uivando na chuva, mas ninguém ouvia seu lamento – a anã estava dizendo. – Sonhei com um tal clangor que julguei que minha cabeça fosse estourar, com tambores, berrantes, flautas e gritos, mas o som mais triste era o de pequenas campainhas. Sonhei com uma donzela num banquete com serpentes roxas nos cabelos e veneno pingando das presas delas. E mais tarde voltei a sonhar com essa donzela, matando um gigante selvagem num castelo feito de neve. – Virou vivamente a cabeça e sorriu através das sombras, diretamente para Arya. – Não pode se esconder de mim, filha. Chegue mais perto, agora.
Dedos frios desceram pelo pescoço de Arya.
A anã estudou-a com seus sombrios olhos vermelhos.