As Três Rameiras ainda dominavam a praça do mercado junto ao portão, mas agora encontravam-se ociosas, e os pedregulhos e barris de piche tinham sido guardados. Havia crianças escalando as grandes estruturas de madeira, subindo como macacos vestidos de tecido grosseiro, para irem se empoleirar nos braços lançadores e gritar uns aos outros.
– Lembre-me de dizer a Sor Addam para colocar aqui alguns de seus homens – disse Tyrion a Bronn enquanto avançavam entre dois dos trabucos. – Um garoto imbecil qualquer é capaz de cair e quebrar a espinha. – Ouviu-se um grito vindo de cima, e um torrão de estrume explodiu no chão, meio metro à frente deles. A égua de Tyrion empinou-se e quase o derrubou. – Pensando bem – disse, depois de controlar o cavalo –, que os fedelhos piolhentos se esmaguem nas pedras como melões passados.
Estava de péssimo humor, e não era só porque um punhado de garotos de rua queriam cobri-lo de bosta. O casamento era uma agonia diária. Sansa Stark mantinha-se donzela, e metade do castelo parecia saber disso. Enquanto selavam os cavalos naquela manhã, ouviu atrás de si dois cavalariços aos risinhos abafados. Quase tinha imaginado que os cavalos também soltavam gargalhadinhas. Arriscara a pele para evitar o ritual nupcial, na esperança de preservar a privacidade de seu quarto, mas essa esperança tinha sido desfeita bem depressa. Ou Sansa fora suficientemente burra para fazer confidências a uma de suas aias, todas elas espiãs de Cersei, ou os responsáveis eram Varys e seus passarinhos.
Que diferença fazia? Riam dele do mesmo jeito. A única pessoa na Fortaleza Vermelha que não parecia achar seu casamento uma fonte de divertimento era a senhora sua esposa.
A infelicidade de Sansa aprofundava-se a cada dia. Tyrion teria de bom grado aberto caminho através de sua cortesia para lhe dar o conforto que pudesse, mas não servia de nada. Nenhuma palavra conseguiria algum dia torná-lo belo aos olhos dela.
E as noites que passavam juntos na grande cama eram outra fonte de tormento. Já não conseguia suportar dormir nu, como era seu costume. A esposa estava bem treinada demais para soltar uma palavra pouco amável, mas a repugnância nos olhos dela sempre que olhava seu corpo era mais do que conseguia suportar. Tyrion ordenara a Sansa que também usasse uma camisa de dormir.
Involuntariamente, seus pensamentos saltaram para Shae. Tyrion não queria que ela ouvisse a novidade de outros lábios que não os seus, então tinha ordenado a Varys que a trouxesse até ele na noite anterior ao casamento. Voltaram a se encontrar nos aposentos do eunuco, e quando Shae tinha começado a desatar os nós do seu gibão, ele pegou-a pelo pulso e a afastou.
– Espere – disse –, há uma coisa que tenho de lhe dizer. Amanhã deverei me casar...
– ... com Sansa Stark. Eu sei.
Tinha perdido a fala por um instante. A essa altura nem mesmo
– Como pode saber? Varys contou?
– Um pajem qualquer estava contando a história a Sor Tallad quando levei Lollys ao septo. Ouvira-a de uma criada que ouviu Sor Kevan falar com seu pai. – Desembaraçou-se das mãos de Tyrion e despiu o vestido pela cabeça. Como sempre, por baixo estava nua. – Não me importa. Ela é só uma garotinha. Vai deixá-la com uma barrigona e voltar para mim.
Uma parte dele tinha esperado menos indiferença.