– Com a primeira flecha. – Catelyn era nova demais para se lembrar, mas Lorde Hoster contara a história com frequência. – A segunda atingiu a vela. – Suspirou.
Edmure não era tão forte quanto parecia. A morte do pai havia sido uma misericórdia quando enfim chegou, mesmo assim atingiu duramente o irmão.
Na noite anterior, embriagado, desabou e chorou, cheio de remorsos por coisas que não tinha feito e palavras que não tinha dito. Disse-lhe entre lágrimas que nunca devia ter saído para travar a sua batalha nos vaus; que devia ter ficado junto à cabeceira do pai.
– Devia ter estado com ele, como você esteve – tinha dito. – Ele falou de mim no fim? Diga-me a verdade, Cat. Ele perguntou por mim?
A última palavra de Lorde Hoster havia sido “
– Ele murmurou o seu nome – mentiu, e o irmão assentiu, grato, e beijou sua mão.
Peixe Negro levou-a das ameias até onde Robb se encontrava entre os vassalos, com sua jovem rainha ao lado. Quando a viu, o filho tomou-a nos braços, em silêncio.
– Lorde Hoster parecia nobre como um rei, senhora – murmurou Jeyne. – Gostaria de ter tido a oportunidade de conhecê-lo.
– E eu de conhecê-lo melhor – acrescentou Robb.
– Ele também teria gostado disso – disse Catelyn. – Havia léguas demais entre Correrrio e Winterfell. –
E de Porto Real chegara também só silêncio. Esperava que àquela altura Brienne e Sor Cleos já tivessem chegado à cidade com o seu cativo. Até podia acontecer de Brienne retornar, trazendo consigo as meninas.
Outros esperavam para entregar a Robb as suas condolências, e Catelyn afastou-se pacientemente enquanto Lorde Jason Mallister, Grande-Jon e Sor Rolph Spicer falavam com ele, um de cada vez. Mas quando Lothar Frey se aproximou, ela puxou-o pela manga. Robb virou-se e esperou para ouvir o que Lothar ia dizer.
– Vossa Graça – rechonchudo e com cerca de trinta e cinco anos, Lothar Frey tinha olhos juntos, uma barba pontiaguda e cabelos escuros que caíam em caracóis sobre os ombros. Uma perna, torcida no parto, dera-lhe o nome de Coxo Lothar. Havia servido como intendente do pai durante a última dúzia de anos. – É com relutância que nos intrometemos em seu luto, mas talvez possa nos conceder uma audiência esta noite?
– Com todo o prazer – disse Robb. – Nunca foi minha intenção semear a inimizade entre nós.
– Nem minha ser a causa disso – disse a Rainha Jeyne.
Lothar Frey sorriu.
– Compreendo, e o senhor meu pai também. Ele instruiu-me para dizer que já foi jovem um dia, e se lembra bem do que é se deixar levar pelo coração.
Catelyn duvidava muito de que Lorde Walder tivesse dito tal coisa, ou que alguma vez tivesse se deixado levar pelo coração. O senhor da Travessia sobrevivera a sete esposas e estava agora casado com a oitava, mas falava delas apenas como aquecedoras de cama e éguas de reprodução. Apesar disso, as palavras eram bonitas, e dificilmente poderia levantar objeções ao elogio. Robb tampouco o fez.
– Seu pai é muito atencioso – disse. – Esperarei ansiosamente a nossa conversa.
Lothar fez uma reverência, beijou a mão da rainha e retirou-se. A essa altura, uma dúzia de outros homens já tinha se reunido para dar uma palavra ao rei. Robb falou com todos, deixando um agradecimento aqui, um sorriso ali, conforme era necessário. Só se virou para Catelyn depois que o último foi embora.
– Há algo que temos de discutir. Pode vir comigo?
– Às suas ordens, Vossa Graça.
– Não foi uma ordem, mãe.
– Então será um prazer.