Читаем A Tormenta de Espadas полностью

– Não pretendia raptá-la – disse ele. – Nem sabia que era uma mulher até encostar a faca na sua garganta.

– Se matar um homem sem querer, ele vai estar morto do mesmo jeito – disse Ygritte teimosamente. Jon nunca havia conhecido pessoa mais teimosa, exceto talvez sua irmã mais nova, Arya. Será que ela ainda é minha irmã?, perguntou a si próprio. Alguma vez terá sido? Ele nunca realmente fora um Stark, apenas o bastardo sem mãe de Lorde Eddard, que não tinha mais lugar em Winterfell do que Theon Greyjoy. E mesmo isso perdera. Quando um homem da Patrulha da Noite proferia suas palavras, punha de lado sua antiga família e juntava-se a uma nova, mas Jon Snow tinha perdido também esses irmãos.

Encontrou Fantasma no topo do monte, como imaginara. O lobo branco nunca uivava, e no entanto algo o atraía às alturas mesmo assim, e ficava ali sentado, com o hálito quente levantando-se numa névoa branca enquanto seus olhos vermelhos bebiam as estrelas.

– Você também tem nomes para elas? – perguntou Jon quando se ajoelhou ao lado do lobo gigante e coçou os espessos pelos brancos do pescoço do animal. – A Lebre? A Corça? A Loba? – Com sua língua úmida e áspera, Fantasma lambeu o rosto de Jon, raspando as crostas onde as garras da águia tinham rasgado sua face. A ave marcou-nos a ambos, Jon pensou. – Fantasma – disse, em voz baixa –, amanhã de manhã passamos sobre a Muralha. Aqui não há degraus, não há gaiola e grua, não há como levá-lo para o outro lado. Temos de nos separar. Compreende?

Na escuridão, os olhos vermelhos do lobo gigante pareciam negros. Encostou o focinho no pescoço de Jon, silencioso como sempre, com o hálito numa névoa quente. Os selvagens chamavam Jon Snow de warg, mas se o era, era dos ruins. Não sabia como vestir uma pele de lobo, como Orell vestia a de sua águia antes de morrer. Um dia Jon sonhara que era Fantasma, e olhava o vale do Guadeleite onde Mance Rayder reunira seu povo, e esse sonho revelou-se verdadeiro. Mas agora não estava sonhando, e isso deixava-lhe apenas as palavras.

– Não pode vir comigo – disse Jon, envolvendo a cabeça do lobo nas mãos e olhando-o profundamente nos olhos. – Tem de ir para Castelo Negro. Compreende? Castelo Negro. Consegue encontrá-lo? O caminho para casa? É só seguir o gelo, para leste e mais para leste, para o sol, e vai encontrá-lo. Em Castelo Negro vão reconhecê-lo, e sua chegada talvez os previna. – Pensara em escrever um aviso para Fantasma levar, mas não tinha tinta nem pergaminho, nem sequer uma pena, e o risco de ser descoberto era grande demais. – Encontramo-nos em Castelo Negro, mas tem de chegar lá sozinho. Temos de caçar sozinhos durante algum tempo. Sozinhos.

O lobo gigante libertou-se de Jon com uma torção do corpo, suas orelhas ergueram-se. E de repente afastou-se aos saltos. Pulou através de um emaranhado de mato, saltou sobre uma árvore caída e correu pela vertente do monte, um traço branco entre as árvores. Para Castelo Negro?, perguntou Jon a si mesmo. Ou atrás de uma lebre? Gostaria de saber. Temia revelar-se tão ruim como warg quanto como irmão juramentado e espião.

Um vento suspirou por entre as árvores, rico com o cheiro de agulhas de pinheiro, puxando sua roupa negra desbotada. Jon via a Muralha erguer-se alta e escura ao sul, uma grande sombra que bloqueava as estrelas. O terreno montanhoso dava-lhe a ideia de que deviam estar em algum lugar entre Torre Sombria e Castelo Negro, provavelmente mais perto da Torre. Havia dias em que se dirigiam para o sul, por entre lagos profundos que se estendiam como dedos finos compridos ao longo de vales estreitos, enquanto cumeadas de sílex e montes vestidos de pinheiros se empurravam uns contra os outros de ambos os lados. Um terreno assim levava a um avanço lento, mas escondia facilmente aqueles que queriam se aproximar da Muralha sem serem vistos.

Corsários selvagens, pensou. Como nós. Como eu.

Para lá daquela Muralha ficavam os Sete Reinos, e tudo aquilo que jurara proteger. Tinha proferido as palavras, empenhado sua vida e sua honra, e o correto seria estar lá em cima, de sentinela. Devia estar levando um berrante aos lábios para chamar a Patrulha da Noite às armas. Mas não tinha berrante. Suspeitava que não seria difícil roubar um dos selvagens, mas o que conseguiria com isso? Mesmo se o soprasse, não haveria ninguém para ouvir. A Muralha tinha cem léguas de comprimento, e a Patrulha estava tristemente reduzida. Todos os fortes, exceto três, tinham sido abandonados; podia não haver nem um irmão num raio de cerca de sessenta e cinco quilômetros, além de si. Se é que ele ainda era um irmão...

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