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Na estalagem dos Lírios, Phillip Tyrer estava sendo massageado por uma corpulenta japonesa, com braços maciços, os dedos de aço encontrando os pontos de pressão, nos quais ela tocava, como se formassem um teclado, sob os seus gemidos de prazer. A casa não era tão refinada ou cara quanto a das Três Carpas, mas a massagem era a melhor que ele já recebera e servia para afastar seus pensamentos de Fujiko, Nakama, André Poncin e Sir William, que estivera furioso durante toda a manhã, culminando ao meio-dia, quando o veneno violento do clube quase explodira os telhados de Iocoama.



— Como se fosse culpa minha o Parlamento ter enlouquecido! — gritara Sir William à mesa do almoço, com a presença do almirante, igualmente furioso. — Acha que é, Phillip?



— Claro que não, Sir William — respondera ele, participante do almoço contra a sua vontade, o general como o terceiro convidado.



— O Parlamento sempre foi arbitrário e estúpido! Por que não deixa o Ministério do Exterior cuidar das colônias, e acabar logo com toda essa aflição? Quanto a essa gentalha, esses homens que se intitulam mercadores, só posso dizer que me deixam com vontade de vomitar!



O almirante resmungara:



— Cinqüenta vergastadas fariam com que todos entrassem na linha, por Deus! Todos, sem exceção, especialmente os jornalistas! São uns canalhas, todos eles!



O general declarara, presunçoso, ainda agastado pela descompostura que Sir William lhe passara por ocasião do motim:



— O que pode fazer, meu caro Sir William, a não ser suportar como um homem? E no seu caso, almirante, meu velho companheiro, estava realmente pedindo por isso, ao fazer declarações políticas em público. Sempre pensei que a primeira regra para quem se torna almirante ou assume as estrelas de general era a de manter a calma, ser circunspecto nas orações públicas e sofrer em silêncio.



O pescoço do almirante Ketterer se tornou púrpura. Sir William conseguiu interromper a salva seguinte, ao dizer:



— Phillip, tenho certeza que há uma abundância de trabalho à sua espera. Toda a correspondência precisa ser copiada e o protesto ao Bakufu deve ser despachado ainda hoje.



Ele escapara do almoço, agradecido. Nakama o cumprimentara com a maior afabilidade.



— Ah, Taira-sama, espero que esteja se sentindo melhor. Mama-san Raiko me pede para perguntar como está sua saúde, pois não foi ao encontro com Fujiko, que está em lágrimas... que estava em lágrimas e...



— Minha saúde está ótima. Passei momentos muito agradáveis ontem à noite, na estalagem dos Lírios — dissera ele, atônito ao constatar que as predições de André eram acuradas. — Fujiko? Começo a ter dúvidas sobre o contrato.



Ele ficara bastante satisfeito ao perceber o espanto de Nakama, e mais ainda porque podia usar seu susto pelo mau humor de Sir William durante a manhã e no almoço para implementar o plano de André.



— Mas, Taira-sama, eu...



— E não vamos mais falar em inglês, também não quero ouvir perguntas sobre negócios. Pode conversar com McFay-sama da Casa Nobre e ponto final...



Tyrer gemeu alto, quando a massagista apertou-o ainda mais fundo. Os dedos pararam no mesmo instante.



Iyé, dozo... — murmurou ele, em japonês. — Não, por favor, não pare. A mulher riu e respondeu:



— Não se preocupe, lorde. Quando eu acabar de trabalhar este seu corpo pálido e sem força, estará preparado para três dos melhores lírios da casa.



Tyrer agradeceu, sem compreender, mas também não se importando com isso.



Depois de três horas com Nakama, conversando só em japonês, e de ouvir mais comentários dele sobre Raiko e sua estalagem — como André previra — sua cabeça girava.



Depois de algum tempo, a massagista iniciou os contatos calmantes, com mãos experientes, usando óleo aromático. Ao terminar, enrolou-o com uma toalha quente e se retirou. Tyrer cochilou, mas despertou no instante em que a porta de shoji foi aberta, uma moça entrou, ajoelhou-se ao seu lado. Ela sorriu, Tyrer retribuiu, disse que se sentia cansado, que ela apenas ficasse sentada ali, até que ele acordasse, seguindo as instruções de André. A moça acenou com a cabeça tornou a sorrir, muito contente. Receberia seus honorários de qualquer maneira.



André é um gênio, pensou ele, também contente, mergulhando num sono feliz.







Aquela noite foi a segunda vez que André visitou Hinodeh. Fazia exatamente dez dias, vinte e duas horas e sete minutos que ele a contemplara em toda a sua glória, a noite gravada em sua mente para sempre.



— Boa noite, Furansu-san — dissera ela, tímida, seu japonês melodioso. A ante-sala ficava junto à pequena varanda, o bangalô no meio dos jardins das Três Carpas, tão fragrante quanto a própria Hinodeh. Os dourados e marrons de seu quimono de inverno fizeram movimentos graciosos, quando ela se inclinara e gesticulara para a almofada à sua frente. Por trás dela, a shoji para o quarto se encontrava entreaberta, apenas o suficiente para que ele pudesse ver os futons e cobertas, que seriam o primeiro leito partilhado.



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