– Sim – disse Sam –, mas é o frio que traz as criaturas, ou são as criaturas que trazem o frio?
– Que importa? – o machado de Grenn fez voar lascas de madeira. – Vêm juntos, e é isso que interessa. E agora que a gente sabe que o vidro de dragão as mata, talvez nem sequer venham. Talvez agora tenham medo de
Sam quis poder acreditar naquilo, mas parecia-lhe que quando se estava morto, o medo não tinha mais significado do que a dor, o amor ou o dever. Envolveu as pernas com os braços, suando sob as camadas de lã, couro e peles que o cobriam. O punhal de pedra de dragão tinha derretido a coisa pálida na floresta, é verdade... mas Grenn estava falando como se ele fizesse o mesmo às criaturas.
Não conseguia entender por que motivo os deuses quereriam levar Jon e Bannen e deixá-lo aqui, covarde e desajeitado como era.
Sam olhou para cima ao ouvir o som. O corvo do Senhor Comandante Mormont circundava a fogueira, batendo o ar com grandes asas negras.
Onde quer que o corvo fosse, Mormont surgiria pouco depois. O Senhor Comandante emergiu de entre as árvores, montado em seu garrano, entre o velho Dywen e o patrulheiro com cara de raposa chamado Ronnel Harclay, que tinha sido promovido ao lugar de Thoren Smallwood. Os lanceiros ao portão gritaram um desafio, e o Velho Urso respondeu com um resmungo de impaciência:
– Quem, nos sete infernos, vocês
– Senhor – ouviu Ronnel Harclay dizer –, temos só vinte e duas montarias, e duvido que metade delas chegue à Muralha.
– Eu sei – resmungou Mormont. – Mas temos de ir mesmo assim. Craster deixou isso claro. – Lançou um relance de olhos para oeste, onde um grupo de nuvens escuras escondia o sol. – Os deuses deram-nos uma folga, mas durante quanto tempo? – Mormont saltou da sela, sobressaltando o corvo, que voltou a levantar voo. Então viu Sam e berrou: –
– Eu? – Sam pôs-se desajeitadamente em pé.
“
– Seu nome é Tarly? Tem algum irmão nas redondezas? Sim, você. Feche a boca e venha comigo.
– Com o senhor? – as palavras jorraram num guincho.
O Senhor Comandante Mormont fulminou-o com o olhar.
– É um homem da Patrulha da Noite. Tente não sujar a roupa de baixo sempre que olho para você. Venha, disse eu. – As botas de Mormont faziam sons úmidos na lama e Sam teve de se apressar para acompanhá-lo. – Tenho pensado nesse seu vidro de dragão.
– Não é
– Está bem, no vidro de dragão de Jon Snow. Se punhais de vidro de dragão são aquilo de que necessitamos, por que é que só temos dois? Cada homem na Muralha devia ser armado com um no dia em que profere suas palavras.
– Não sabíamos...